O que é a Computação Ambiental

Na última década, formaram-se expectativas crescentes acerca da criação de espaçoos construí­dos com capacidade para responder dinamicamente a mudanças demográficas, tecnológicas, climáticas e de fatores interferentes na saúde da população. São desafios e oportunidades globais que exigem arquitetos e designers com a capacidade de moldar criativamente a forma como edifí­cios, paisagens e cidades podem se adaptar ao longo do tempo. A Computação Ambiental é um campo que contribui para essa qualificação profissional.

A Computação Ambiental (CA) trata de sistemas que requerem a aproximação dos campos da Tecnologia da Informação, da Arquitetura e do Urbanismo para apoiar projetos onde as pessoas irão utilizar os espaços e os objetos cotidianos como interfaces de acesso às capacidades computacionais instaladas no lugar.

Dessa maneira, num projeto que utiliza a Computação Ambiental, os componentes da Tecnologia da Informação ficam embutidos ou desaparecem, ao mesmo tempo em que coletam informações sobre as atividades humanas, processando-as e agindo em benefí­cio delas.

Segundo as previs̵es do cientista norte-americano Mark D. Weiser, uma ampla gama de tecnologias evoluiria para permitir que a capacidade funcional dos computadores fosse trazida para o mundo real Рo mundo das pessoas comuns e de suas atividades Рde forma que elas os pudessem usar de maneira calma e intuitiva (Shafer 2000).
sensorDetector de presença por sensor à pressão

Acreditando que os computadores de mesa diminuiriam de importância e que os componentes eletrônicos da Tecnologia da Informação se tornariam menores, melhores e mais econômicos, Weiser vislumbrou que a computação se entrelaçaria com o quotidiano das pessoas, com seus objetos e espaços – e a tecnologia se tornaria invisível, assumindo um segundo plano em nossas consciências, livrando-nos de fatores complicadores do quotidiano.

Passadas décadas, o debate sobre o assunto nos países desenvolvidos evoluiu consideravelmente, sobretudo nas engenharias. Os resultados de suas aplicações são dignos de nota: por exemplo, hoje já é possível saber o estado das estruturas de concreto após abalos sísmicos, utilizando sensores embutidos em seu interior. Igualmente, a acidez do solo em grandes plantações pode ser monitorada através de microprocessadores e sensores, comunicantes em redes [gs ad hoc]. O risco químico em instalações fabris ou áreas, que exigem submersão, também pode ser monitorado por tais sensores. Recentemente, a Tecnologia da Informação avançou no sentido de ultrapassar os tipos mais conhecidos de redes, a [gs LAN] e a [gs WAN], para criar uma “Human Area Networkâ€? (HAN), uma rede em escala humana onde é possível utilizar a corrente elétrica do corpo para transmitir dados a dispositivos portáteis, através do toque humano em objetos ou outras pessoas.

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Mas, em se tratando do espaço para a habitação humana – o espaço arquitetônico e o urbano – a Computação Ambiental enfrenta hoje dois problemas cruciais.

Primeiramente, no que diz respeito à habitação, ela foi fortemente guiada por tendências de consumo e da arte performática nos últimos anos. Em segundo lugar, ela sofreu uma crise do conceito do lugar físico como ponto de partida do projeto de suas interfaces. Vejamos a seguir esses dois problemas e como a superação deles nos permitem assumir uma outra postura.

power

Power Line Positioning utiliza a fiação elétrica para determinar a posição de dispositivos no ambiente fechado.

O primeiro problema por que passou a CA pode ser entendido à partir das sequências de inovações em Tecnologia de Informação (TI) motivadas exclusivamente pela novidade e pelo lucro.

Componentes de TI embutidos em ambientes como salas ou praças ou integrados à portáteis como dispositivos móveis e até mesmo vestimentas  permitem utilizar situações espaciais como interfaces intuitivas e fáceis. Entretanto, grande parte dessa tecnologia e de seus produtos é impulsionada pelo próprio progresso tecnológico e pela facilidade de evoluir um passo mais adiante do estado em que ela já se encontra. Ao invés de ser, de fato, o resultado da necessidade humana e genuinamente ser utilizada para fortalecer as [gs qualidades dos lugares] onde estão implantadas, essas novas tecnologias interativas, sob esse ponto de vista, apontam para a produção de produtos usáveis, porém não necessariamente úteis. Desse modo, nós vivemos num dilema tecnológico onde grande parte do que vem sendo desenvolvido nessa e noutras áreas baseia-se no fato único de que a tecnologia pode possibilitar tal evolução – mas não se trata de uma demanda legítima nem das pessoas e nem dos lugares onde elas vivem.

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Cozinha do “futuro”, fonte: Electrolux

Vimos há alguns anos a inutilidade de inovações como geladeiras conectadas a supermercados; controladores automáticos de luminosidade e temperatura regulados pelo bater de palmas; displays artísticos e interativos nas ruas que recebiam mensagens de telefones celulares, e uma variedade de aplicações da realidade aumentada e da virtualidade em performances de arte digital (por exemplo, Novak 1996; 2000; Oosterhuis 2002; Lozano-Hemmer 2005). Destas inovações, poucas, de fato, poderiam ser respostas às necessidades das pessoas para que elas habitem melhor.

O segundo problema com o desenvolvimento da CA é relativamente à crise do conceito de lugar e pode ser compreendido a partir das deformações que se produziram na interpretação das idéias de Weiser por autores que o sucederam. A idéia de que qualquer lugar pudesse oferecer acesso, a qualquer tempo, à capacidades computacionais de um sistema de CA conduziu a uma gradativa diminuição da importância da geometria dos lugares físicos, sobretudo na discussão do projeto das interfaces para esses sistemas.

Arnold chamou esse conjunto de idéias de uma “filosofia determinística da TIâ€?, porque os autores que advogavam esses conceitos entendiam que a tecnologia seria capaz de, sozinha, “revolucionarâ€? a sociedade inelutavelmente, prescindindo da experiência do próprio espaço social e sua concreção, o espaço físico real.

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Espaço virtual de Marcos Novak; fonte: transarquitetura

Outras idéias determinísticas imaginaram que, através da superconectividade futurística, a Tecnologia da Informação encolheria o mundo, encurtando suas distâncias físicas  e promovendo uma interatividade generalizada. Usando metáforas sobre a territorialidade, essas predições futurísticas conceberam idealmente redes que comporiam “espaços eletrônicosâ€? que, algum dia, substituiriam os espaços da territorialidade humana. O desaparecimento das distâncias físicas provocaria o enfraquecimento das divisões sociais, e o “cyberspaçoâ€? atenuaria as diferenças econômicas e culturais, ocasionando o declínio do espaço físico e da cidade – até à sua dissolução como tal. Ainda no viés de uma filosofia determinística, a imersão através da tecnologia da Realidade Virtual (VR) faria com que o espaço real pudesse ser representado com toda sua riqueza de detalhes, demonstrando que o real seria desnecessário para grande parte das operações quotidianas. Desenvolveu-se, com essas idéias e doutrinas, uma crise na noção das dimensões físicas do espaço, do lugar e da cidade. Mitchell  sintetizou isso brilhantemente, observando que “a rede negava a geometria do lugar físicoâ€? (Apud McCullough 2004: 98)

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Entretanto a experiência, com o passar do tempo, mudou a concepção de outros autores a respeito do espaço. Greeenfield (2006), como diversos outros (Stefik 1996; Sengers, Kaye et al. 2004) concluiu  que “o debate sobre a Computação Ambiental deve ser uma discussão sobre a ecologia dos dispositivos e das plataformas aplicados aos lugares em que se instalem capacidades computacionais específicasâ€?. Outros autores (Feenberg 1991; Arnold 2003) também repudiaram o determinismo futurista para conceber que a articulação lugar/cidade/redes reforçava a ideia de que a materialidade do espaço construído e da Tecnologia de Informação devesse ser discutida como recursivamente criadora de um e de outro, moldando-se ambos nesse processo.

Depois de muito tempo, a CA voltou a considerar o lugar físico como vital para o projeto de suas interfaces, na visão de que a Computação Ambiental começa com a geometria física dos lugares.

Por concordar com isso, é que pretende-se valorizar os aspectos espaciais que são o ponto de partida para a criação de interfaces e aplicação de recursos computacionais que revitalizem e reforcem as qualidades do lugar arquitetônico e urbano.

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