Episteme 1

Quadro Teórico

Hipotético Dedutivismo

 Anteriormente à leitura desta seção, sugere-se a leitura de todo texto em Subsídios para Epistemologia

O texto desta seção pede que o leitor esteja familiarizado com alguns termos da filosofia da ciência para melhor compreendê-la. 

A proposta de destacar o pensamento de Popper é no sentido de sumarizar a importância de seus pensamentos já muito disseminados, e realçar os problemas básicos no enfrentamento coerente dos problemas pesquisados.

Karl Popper, que lançou as bases do método hipotético-dedutivo e do critério da falseabilidade  é o criador do método hipotético-dedutivo e um falibilista na área científica, tendo rejeitado o indutivismo categoricamente. 

Para ele, o conhecimento científico não possui o valor de verdade, mas de verossimilhança.

Em sua obra Conjecturas e Refutações”, o teórico defende que existem diferentes graus de proximidade da verdade.  Isto é, embora uma hipótese científica possa ser refutada, parte de seu conteúdo pode ser verdadeiro.

A essa proximidade da verdade, ele chamou de verossimilhança.  

O método hipotético-dedutivo definido por Karl Pooper a partir de críticas à indução é sintetizado em A lógica da investigação científica”, obra publicada em 1935. 

A indução, no seu entender, não se justifica, pois o salto indutivo de “alguns” para “todos” exigiria que a observação de fatos isolados atingisse o infinito, o que nunca poderia ocorrer, por maior que fosse a quantidade de fatos observados.

01

Teoria

Uma teoria é científica se for testável e suscetível de falsificação empírica mediante a observação.

02

Pseudo-ciência

Uma teoria irrefutável não tem como ser considerada científica.

03

Indutivismo

O indutivismo é uma perspetiva errada sobre o método científico.

04

Temporário

As teorias e hipóteses científicas não podem ser verificadas nem confirmadas, unicamente corroboradas.

05

Atenção

Os cientistas exercem uma vigilância crítica permanente das hipóteses e teorias científicas. 

06

Objetividade

A ciência é objetiva porque os cientistas submetem as teorias ou hipóteses a testes empíricos rigorosos.

"A ciência procede por conjeturas (hipóteses) e refutações em direção a um ideal de verdade que nunca atingirá, mas do qual se aproxima constantemente mediante a eliminação de erros".

Karl Popper

QUEM FOI

Karl Popper

Popper nasceu em uma família de judeus vienenses que se converteram ao luteranismo. Seu pai era um advogado importante, sua mãe era música e a casa estava repleta de livros, que ele era estimulado a ler. O ano de 1919 – quando Popper tinha dezessete anos de idade – se provaria decisivo para ele por três razões. Primeiro, iniciou um flerte apaixonado com o marxismo. Entrou para a Associação de Estudantes Socialistas, mas não levou muito tempo para rejeitar suas atitudes doutrinárias. Em segundo lugar, desenvolveu interesse pela psicanálise. Foi apresentado à teoria freudiana por Alfred Adler, que rapidamente conseguiu para Popper um emprego como assistente social com crianças desfavorecidas. A terceira e mais importante experiência que Popper teve em 1919 foi ouvir a palestra de Albert Einstein a respeito de sua teoria da relatividade, em Viena. Este evento mostrou-se crucial no desenvolvimento intelectual de Popper. Fez com que aderisse com intensidade ao campo científico. Popper reconheceu de imediato que a teoria de Einstein era um modelo de pensamento científico: suas hipóteses eram testáveis e verificáveis. Ele viria a acreditar que as ideias de Marx, Darwin e Freud, por outro lado, não o eram. E assim, no espaço de apenas um ano, Popper se familiarizou com (e fez escolhas filosóficas permanentemente definidoras sobre) as quatro grandes tendências do pensamento ocidental do século XX.
Teorias Críticas e a Crítica Radical

Não se trata de compor uma “teoria para todas as estações“,  ou uma “grande narrativa” capaz de versar sobre qualquer aspecto da realidade, explicando-a  como forma superestrutural, submissa  à base econômica. Essa ideia já é, em si, uma crença, tal qual outras crenças em mundos idealizados. 

O mundo real é o que se critica com radicalismo, e a ação é levar cientistas a perguntarem-se sobre qual o próximo passo – não o imobilismo.   “Aqueles que nos prometem o paraíso na terra nunca produziram nada além do inferno”, comenta Popper.

Probabilidade e Contingência

Com Popper, os limites da ciência se definem claramente. A ciência produz teorias falseáveis, que serão válidas enquanto não refutadas. Por este modelo, não há como a ciência tratar de assuntos do domínio da religião, que tem suas doutrinas como verdades eternas ou de algumas filosofias, que buscam verdades absolutas absolutas e futuros felizes sem possibilitarem a refutabilidade. São crenças. 

Totalitarismo

Na "Miséria do historicismo" Popper declara que, em sua raiz, a liberdade significa imprevisibilidade. Qualquer posição política sustentada por uma pseudo ciência sabe o estado final do mundo que suas revoluções pretendem. São incontestáveis.
Historicismo

Ignorância

"Eu esperava chamar a atenção para a teoria conspiratória da ignorância, que interpreta a ignorância não como uma mera falta de conhecimento, mas como o trabalho de algum poder sinistro, a fonte de influências más e impuras que pervertem e envenenam nossas mentes e instilam em nós o hábito da resistência ao conhecimento."
Conspiração
 Karl Popper, Conjecturas e refutações (1963)

Marx

O elemento profético no credo de Marx foi dominante nas mentes de seus seguidores. Ele marginalizou todo o resto, banindo o poder do juízo frio e crítico e destruindo a crença de que, por meio da razão, podemos mudar o mundo.
novo mundo
Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, vol. 2 (1962)

Mais Marx

Tudo que restou do ensinamento de Marx foi a filosofia oracular de Hegel, que, em sua pompa marxista, ameaça paralisar a luta por uma sociedade aberta.
Gatinhos
Popper, A sociedade aberta e seus inimigos, vol. 2 (1962)
Reproduzir vídeo
O mundo não é feito de coisas, mas de processos
Popper

O tema da falsificabilidade permite a Popper resolver dois problemas: o da demarcação entre ciência e não ciência e o do papel da indução na ciência.

A falsificabilidade é a caraterística de uma teoria ou hipótese que pode ser refutada por alguma observação.

O problema da demarcação consiste em encontrar um critério que permita separar   ciência de pseudociência.

Será científica a teoria que se submete a testes destinados a falsificá-la e assim a refutá-la. A ciência distingue-se da pseudociência porque procura falsificar e não verificar ou confirmar as suas hipóteses. 

As teorias que não são refutáveis por alguma observação possível não são científicas. E são cientificamente tanto mais úteis quanto mais riscos correrem nas previsões que fazem.

Popper resolve o problema da indução opondo à conceçãoindutivista da investigação científica (que procura tornar verdadeiras as teorias) a falsificação. A indução não é o método da ciência porque: 1. Não podemos inferir as hipóteses da experiência como se houvesse observações puras ou objetivas. Os cientistas deduzem consequências observacionais das teorias e, submetendo essas predições ao confronto com os factos, sujeitam as teorias a testes rigorosos. Não precisam da indução para formar hipóteses. 2. A experimentação científica não é realizada com o objetivo de «verificar» ou estabelecer a verdade de hipóteses ou teorias porque esse objetivo é impossível. A indução não nos pode dar certezas acerca da verdade das nossas teorias. Por maior que seja o número de observações a favor de uma teoria obtida por indução, esta pode sempre vir a revelar-se falsa. Mas podemos muitas vezes ter a certeza da sua falsidade adotando um modelo hipotético dedutivo que procura provar a falsidade e não a verdade de uma teoria.

Uma teoria diz-se corroborada quando resiste aos testes destinados a falsificá-la.

Para ser corroborada uma teoria deve apresentar um bom conteúdo empírico que restrinja aquilo segundo as suas previsões pode acontecer ‒ de modo a não ser vaga ‒ e deve passar em testes sérios e rigorosos. Mas ser corroborada não significa dizer que a sua verdade foi provada nem que é provável que seja verdadeira. Unicamente não foi refutada e podemos continuar a trabalhar com ela, se não for posteriormente desmentida ou se não encontrarmos uma melhor. A qualquer momento, uma teoria pode ser refutada por novos testes. O máximo que se pode dizer de uma teoria científica é que, até a um dado momento, ela resistiu aos testes usados para a refutar.

A ciência progride mediante o método das conjeturas e refutações.

As conjeturas ou hipóteses – que nunca podem ser verificadas ou confirmadas ‒ são sujeitas a testes severos aos quais podem sobreviver ou não. As que sobrevivem às tentativas de refutação revelam-se mais resistentes, mas nunca verdadeiras ou provavelmente verdadeiras. Constituem, em comparação com outras, uma melhor aproximação à verdade. O seu grau de verosimilhança é o critério que as torna melhores do que teorias rivais. Aproxima-se mais da verdade a conjetura que resolve melhor certos problemas do que as suas competidoras.

O progresso científico, mediante a eliminação de erros, é uma evolução em direção a uma meta ideal inalcançável: o ideal da verdade como espelho fiel da realidade.

A filosofia política de Popper

 

Popper passou a considerar que o historicismo de Marx – ou qualquer historicismo, na realidade – trazia consequências desastrosas para a raça humana.

O primeiro volume de “A sociedade aberta e seus inimigos” se concentra em Platão – seu subtítulo é “O sortilégio de Platão” – como o primeiro de uma longa lista de historicistas que passa por Hegel e Marx, e que são tratados no segundo volume (cujo subtítulo é “A preamar da profecia”).

Por quase 2.500 anos, Platão desfrutou a reputação de um pai benigno da filosofia moderna, aluno fiel de Sócrates e sábio em quase tudo.

Em contraste com essa visão, a leitura de Popper do livro “A república“, de Platão, destaca a natureza totalitária do Estado platônico.

Ele identifica quatro ingredientes do totalitarismo platônico:

  • (1) “rígida divisão de classes… pastores e sentinelas devem ser estritamente separados do gado humano”;
  • (2) o destino do Estado deve se identificar com a classe dominante, com “regras rígidas de reprodução” – um programa de eugenia precoce;
  • (3) a classe dominante é militar, mas excluída das atividades econômicas;
  • (4) censura de todas as atividades da classe dominante.

No segundo volume, Popper trata de Marx.

O problema do marxismo, argumenta ele, é que ele utiliza a ciência erroneamente.

Marx e todos os historicistas (incluindo Hegel) acreditam de maneira equivocada que a história humana pode ser prevista de acordo com princípios “científicos”.

Isto é impossível, segundo Popper, uma vez que o conhecimento adquirido pelas sociedades no curso de seu desenvolvimento afeta essa história de maneiras que não podem ser previstas.

 

Em sua raiz, liberdade significa imprevisibilidade.

Popper, Polanyi e Kuhn: a história da ciência como disciplina

Popper trouxe a filosofia da ciência para a vanguarda da disciplina de filosofia e criou um ambiente no qual ela podia prosperar.

Suas pesquisas tinham necessariamente um elemento histórico, e, a partir dos anos 1960, a história da ciência começou a se desenvolver por conta própria como disciplina, fomentando e sendo fomentada pela filosofia da ciência.

As figuras centrais de exploração de ambas as áreas são o filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi (1891-1976) e o físico americano T. S. Kuhn (1922-96).

O livro de Polanyi “Personal Knowledge: Towards a Post-Critical Philosophy” [Conhecimento pessoal: em direção a uma filosofia pós-crítica] (1958) tratou de temas levantados pela subjetividade do observador científico.

Kuhn foi um físico praticante que se voltou para a história da ciência, tendo sido influenciado pelo trabalho de Polanyi.

O livro de Kuhn “A estrutura das revoluções científicas” (1962) teve enorme efeito sobre o modo como o progresso científico é visto.

Anteriormente, pensava-se que o conhecimento científico era acumulado de maneira linear e ordenada, com um descobrimento conduzindo a outro, e assim por diante, numa espécie de progresso evolutivo estável.

Kuhn derrubou essa ideia com a tese de que cada era científica é governada por um paradigma – uma visão de mundo, uma maneira de enxergar o mundo e de executar ações dentro dele – que é eliminado em uma violenta ruptura epistêmica, o que leva à substituição por um novo paradigma.

Esta é a estrutura da revolução científica.
A maior parte dos trabalhos científicos trata-se do que Kuhn denomina ciência “normal” – trabalho de laboratório e experimentações executadas para apoiar o novo paradigma dominante.

Não é função da ciência “normal” desafiar o novo paradigma.

A teoria da relatividade de Einstein, por exemplo, necessitou de uma mudança de paradigma. Einstein desafiou a ordem do universo segundo estabelecida na física de Isaac Newton (1643-1727); em consequência disso, o trabalho de cientistas pós-Einstein é solucionar as diversas questões levantadas pela mecânica quântica e o novo modo de conceber o universo que derrubou o paradigma de Newton.