Conclusões

Escultura de Episteme.

 

Como vimos, um novo enfoque da natureza da ciência surgiu ao longo do século XX através de diferentes interpretações epistemológicas, baseado na ideia de que a ciência é uma construção do ser humano através da imaginação, da criatividade, da intuição. Um processo cuidadoso, mas sujeito a rupturas e erros, como em qualquer outra atividade humana.

Entrou em cena uma filosofia ora revolucionária, ora evolucionista, permeada pela mudança dos conceitos e teorias, não mais baseada em princípios fixos e imutáveis. Novas ideias e novas teorias surgem continuamente e a comunidade científica baliza, depura, filtra, aperfeiçoa, modifica incessantemente, de forma que sobrevivem as mais aptas, que explicam e modelam melhor a natureza.

  • Nenhuma dessas visões epistemológicas dispensa, entretanto, a comparação das consequências teóricas com os dados observacionais. É exatamente esse diferencial que garante credibilidade à ciência moderna. Esse conjunto de idéias constitui o que chamamos de visão epistemológica contemporânea.
  • Existem muitas divergências e controvérsias entre os próprios filósofos da ciência, de tal forma que não é possível falar em uma visão “correta” da natureza da ciência.
  • Mas essas divergências não impedem que se possa afirmar que há, em grandes linhas, entre os expoentes da interpretação epistemológica do século XX, um conjunto de características de razoável concordância sobre a natureza da ciência.

Assim, a visão epistemológica contemporânea representa o que há de razoável consenso entre os principais epistemólogos estudados, formando uma espécie de base epistemológica com algumas características comuns:

  • o conhecimento  científico,  embora  consistente,  é  de  natureza  conjetural,  hipotética  e tentativa (é uma construção humana sujeita a mudanças);
  • a imaginação  e  a  criatividade  são  ingredientes  indispensáveis  para  o  avanço  do conhecimento científico, aliadas às técnicas de investigação científica;
  • a concepção empirista-indutivista está superada (leis e teorias não são descobertas através da utilização rigorosa de algum método científico infalível);
  • a teoria, sob a forma de hipóteses, precede a observação (observação, por si só, não é fonte de conhecimento);
  • não há  um  método  único  e  algorítmico  para  fazer  ciência  (há  uma  diversidade metodológica);
  • a ciência não é socialmente neutra e descontextualizada, leva em conta o indivíduo, suas ideias e necessidades, o lugar e a época em que vive.
  • há uma permanente competição (ou substituição) de teorias e/ou programas de pesquisa (sobrevivem os mais aptos, os que explicam melhor, os que resolvem mais problemas científicos);
  • conjuntos de conceitos e de teorias evoluem com o tempo acompanhando a própria evolução social e cultural (leis e teorias não são fixas e imutáveis);
  • a construção e a aquisição de conhecimento científico é um processo problemático, não-linear, não-cumulativo;
  • diferentes campos da ciência requerem diferentes técnicas e metodologias de forma que o quadro conceitual da Física clássica não dá conta dos campos de pesquisa de sistemas complexos;
  • reconhece-se o papel da observação e experimentação na pesquisa científica sem cair no “reducionismo experimental” (observação e experimentação tomadas como infalíveis, capazes de refutar de forma imediata uma hipótese teórica).

A ciência, nessa visão, não está preocupada em “obter fatos” ou “descobrir verdades” mas sim em formular teorias e modelos cada vez mais eficazes para explicar os fenômenos naturais e da vida. Para tanto, a ciência formula hipóteses, extrapolando os dados disponíveis e propondo princípios gerais.

Uma das características que diferencia ciência de outras formas de conhecimento é que os resultados da ciência são reproduzíveis por outros cientistas, utilizando as mesmas técnicas, e seus objetos de estudo pertencem ao mundo natural.

A idéia de construção da ciência através da “racionalidade” aparece em quase todas as visões  epistemológicas  aqui  apresentadas  embora  a   embora  a  racionalidade encontre  diferentes definições entre as diversas visões apresentadas.

As  teorias  epistemológicas  mais  recentes  têm  adotado  uma visão  evolucionista contrária  à  idéia  de  rupturas  ou  revoluções  repentinas.  Entra  em cena  uma  filosofia evolucionista,  permeada  pela  mudança  e  seleção  dos  conceitos  gerando  mudanças  nas próprias comunidades científicas que os as compartilham. Ou seja, novas idéias e novas teorias surgem continuamente e a comunidade científica permanentemente julga, seleciona, modifica ou abandona idéias e teorias. Sobrevivem as mais aptas, a exemplo do mundo natural, sendo que essas mudanças também modificam o cientista, o ser humano.

Além disso, as teorias epistemológicas mais recentes passaram a destacar também os fatores sociais, políticos, econômicos, culturais e históricos como fatores que realmente interferem (ou filtram) no processo de mudança conceitual e no avanço da ciência.

A  epistemologia  do  século  XX  também  se  preocupou  em  desendeusar  o  fazer científico, que durante muito tempo usufruiu dessa condição descontextualizada.

Acreditamos que tal visão é importante na medida em que a atividade científica passa a ser entendida como uma atividade humana igual a qualquer outra, com dificuldades e carências, com apogeus e conquistas, realizada por homens e mulheres dotados de preconceitos e necessidades, sonhos e emoções, como quaisquer outras profissões.

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