Capítulo 8: toulmin – Subsídios para epistemologia

Stephen Toulmin

Em uma das abordagens mais complexas vistas até aqui, afirma Stephen Toulmin (1922) que o ser humano conhece e também é consciente de que conhece, em consequência disso a compreensão humana tem sido dual com o passar do tempo: tem se tornado mais vasta, tem crescido e tem se tornado mais reflexiva, mais profunda.

Toulmin propõe construir uma nova teoria da compreensão humana, uma nova explicação  das  capacidades,  processos  e  atividades  através  dos  quais  o  ser  humano compreende a natureza, envolvendo todas as disciplinas que se ocupam da percepção e do processo de conhecer; e que leve em conta os processos sócio-históricos em que se desenvolveram nossos conceitos e a mudança conceitual.

Ainda hoje, afirma, sofremos as influências de questões descendentes de Descartes e Locke, do século XVII, num contexto intelectual superado que entendia a natureza como governada por leis fixas e imutáveis; via a matéria como algo inerte; estava preso à tradição bíblica onde o mundo era estável desde a Criação, ao invés de um contínuo fluir através de milhões de anos como o aceitamos hoje.

Para que uma teoria do conhecimento acompanhe a ciência não pode estar baseada em princípios fixos e imutáveis, mas sim na interação entre o ser humano atual, seus conceitos e o mundo em que vive. Isso representa forjar problemas da nossa própria época, dentro das nossas crenças e nossas ideias sobre a natureza. .

Um dos pontos chave das ideias de Toulmin é a questão dos conceitos e da mudança conceitual. O desenvolvimento dos conceitos coletivos é examinado sob dois aspectos: a inovação (fatores que levam a tradição intelectual a avançar) e a seleção (fatores que levam a tradição intelectual a aceitar tais inovações).

Podemos compreender o desenvolvimento dos novos conceitos  se  levarmos  em  conta  o  papel  que  desempenham  os  processos  racionais (intelectuais e sócio-históricos).

Toulmin distingue a “logicidade” dos sistemas proposicionais (válidos na matemática pura) da “racionalidade” das mudanças conceituais nas ciências. Racionalidade, no sentido de Toulmin, nada tem a ver com sistematicidade lógica, mas sim com a maneira como os cientistas realizam a mudança conceitual.

Ele utiliza as idéias de Darwin sobre a evolução das espécies vivas para, fazendo uma comparação, explicar a evolução e o desenvolvimento conceitual (variação,  perpetuação seletiva, êxito, etc.). As novidades intelectuais constantemente aparecem e são comparadas às variações das espécies, pois, nem todas, mas apenas algumas são transmitidas às gerações seguintes por um processo seletivo.

Essa explicação evolutiva dos conceitos caracteriza, de um lado, a continuidade e coerência de disciplinas separadas e identificadas por diferentes atividades intelectuais dos seres humanos e, de outro, um estado de profundas mudanças a longo prazo pelas quais as disciplinas se transformam ou são superadas.

As atividades científicas dos seres humanos dividem-se em disciplinas que são empresas racionais que reúnem em torno de si grupos de cientistas, profissionais unidos pelo objeto de estudo, pelos métodos e objetivos que as caracterizam e pelos ideais e ambições explicativas. Esses empreendimentos racionais (as disciplinas) estão em desenvolvimento histórico, dedicam-se a melhorar nossas explicações dos fenômenos e estão obrigados a sua própria transformação, à autocrítica.

Os cientistas e as disciplinas passam, portanto, por um processo gradual e permanente que transforma seus modos teóricos e conceitos. A contínua emergência de inovações intelectuais é equilibrada por um processo de seleção crítica.

Toulmin, desta forma, também rechaça o indutivismo, pois afirma que os conceitos evoluem à medida que evoluem as ambições explicativas e deixa claro que há uma relação essencial entre os ideais intelectuais e os procedimentos explicativos ou entre os conceitos e os problemas teóricos numa disciplina.

A evolução conceitual é entendida como uma atividade humana historicamente em desenvolvimento e que apresenta duas faces: uma disciplinária e outra profissional. As vidas e as  atividades  intelectuais  dos  seres  humanos  se  dividem  em  diferentes  disciplinas  e profissões.

Aquilo que identifica uma disciplina não são os seres humanos que nela trabalham ao longo do tempo, nem suas ideias, equações e/ou os principais conceitos, que podem mudar de uma geração para outra, mas sim os problemas com que gerações sucessivas se enfrentam e concentram seu trabalho. Os problemas surgem quando nossas ideias sobre o mundo estão em conflito com a natureza (com a experiência) ou entre si, ou seja, quando nossas ideias ficam atrás de nossos ideais explicativos.

O conjunto dos conceitos representativos de uma ciência  transmite-se através das gerações pelo processo de enculturamento. Técnicas, procedimentos e habilidades intelectuais são aprendidos.

Em uma contribuição importante para o ensino de ciências, afirma Toulmin  que não basta aprender de forma mecânica para se compreender uma ciência, mas é preciso associar às palavras e equações as suas aplicações empíricas e, mais ainda, olhar para tudo o que se faz de forma crítica, com o objetivo de melhorar e modificar a herança intelectual. Assim avança a ciência.

Toulmin também diferencia, como Laudan (1977), os problemas empíricos dos conceituais. Exemplo de problemas conceituais: quando os cientistas desejam explicações mais precisas de um fenômeno devem refinar os procedimentos originais ou elaborar novos conceitos e teorias. Cita, além dos problemas conceituais internos, os externos que são os conflitos entre teorias e/ou procedimentos.

O enfrentamento desses problemas gera mudanças conceituais que podem ser compreendidas em termos da solução de problemas. Nesse processo, novidades conceituais podem ser propostas e acabam gerando mudanças conceituais radicais ou, os conceitos são mantidos intactos e ocorre um refinamento da teoria.

Toulmin afirma que o cientista natural exibe sua racionalidade quando se mostra disposto a abandonar um sistema universal de pensamento e a revisar seus conceitos e teorias à medida que se aprofunda progressivamente na experiência do mundo. Uma inovação conceitual é uma tarefa sutil e imaginativa que deve ser aceita coletivamente antes de se tornar uma possibilidade; a comunidade julga como pode ela contribuir na solução de um problema ou conjunto de problemas.

A existência de foros profissionais de discussão é, portanto, condição para o desenvolvimento sério e metódico dos ideais de uma disciplina. É preciso que ela esteja organizada profissionalmente.

Alerta, entretanto, que os fatores intelectuais e sociais funcionam, muitas vezes, como filtros. As questões científicas se relacionam com as pessoas, cujos conceitos, teorias e ideais explicativos  estão  em  permanente  discussão.  Na  ciência,  embora  aparente  uma  imagem pública impecável, “o poder segue sendo o poder” e a “instituição segue sendo a instituição”, ou seja, as pessoas e as instituições exercem poder e influência tão reais quanto na política ou na vida cotidiana.

Em resumo, a ciência é vista como um empreendimento racional em termos de populações de conceitos, associados a teorias mais ou menos estruturadas – as disciplinas; de outro  lado,  há  a  população  de  cientistas,  vinculados  a  instituições  mais  ou  menos formalizadas – as profissões.

Toulmin  assevera  que  se  fizermos  um  paralelo  entre  disciplinas  e  profissões científicas verificaremos que na ciência, assim como em qualquer esfera da vida humana, alguns indivíduos são mais iguais, adquirem maior influência e falam em nome da disciplina, e novas idéias somente se tornarão possibilidades se houver adesão dos membros influentes. Caso contrário estarão condenadas à desaparecer.

O enfoque principal de Toulmin está nos conceitos (átomos do conhecimento) e na mudança conceitual. Nesta óptica, a racionalidade está associada aos procedimentos necessários para que ocorra a mudança conceitual e esses procedimentos envolvem questões intelectuais, sociais, econômicas e culturais da comunidade em cada época e lugar. Os conceitos exercem autoridade intelectual sobre os pensadores individuais à semelhança da autoridade que as regras, costumes morais, leis e instituições coletivas exercem sobre os indivíduos.

As inovações conceituais do físico individual (por exemplo) são julgadas em relação às ideias comuns que compartilha com o restante dos seus colegas; e pensa criadoramente quando dá a sua contribuição para a melhoria desta «física» coletiva. (Toulmin, 1977, p. 50).

Os conceitos compartilhados são os instrumentos do nosso pensamento; o indivíduo herda  os  conceitos  no  contexto  social  e  ao  mesmo  tempo  se  torna  individualmente  seu usuário, ou seja, relativamente aos conceitos há duas dimensões: a individual e a coletiva.

Na dimensão  coletiva,  Toulmin  entende  que  adquirimos  a  linguagem  e  os  pensamentos conceituais no curso da nossa educação e enculturamento, que acabam sendo o reflexo do pensamento e da compreensão da sociedade onde cada pessoa está inserida.

No dizer de Toulmin, os conceitos que emprega um indivíduo, os padrões de juízo racional que reconhece, como organiza sua vida e interpreta sua experiência, todas essas coisas  dependem,  ao  que  parece,  não  das  características  de  uma  ‘natureza  humana’ universal  ou  da  evidência  intuitiva  de  suas  idéias  básicas  somente,  senão  também  do momento em que nasceu e o lugar em que viveu (ibid.). É um erro identificar a racionalidade com a logicidade. A racionalidade está associada às condições e maneiras em que o sujeito se dispõe a criticar e modificar as doutrinas intelectuais ou teorias que adota com o passar do tempo. Não há nenhuma lógica no descobrimento de novos conceitos. Toda atividade intelectual é um empreendimento onde a racionalidade reside nos procedimentos que governam seu desenvolvimento e sua evolução histórica.

Toulmin  assevera  que  devemos  abandonar  o  pressuposto  de  que  a  compreensão humana opera necessária e universalmente de acordo com princípios fixos.

Esta postura inverte o ponto de prova. Antes a mudança conceitual era o fenômeno que devia ser explicado dentro de um cenário de imutabilidade intelectual; agora o fluxo intelectual é esperado e tudo o que é contínuo, estável ou universal se converte no fenômeno que exige explicação. A regra é a variabilidade conceitual.

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