Capítulo 7: filosofia do não – Subsídios para a Epistemologia

Gaston Bachelar

A doutrina de Gaston Bachelard (1884-1962) está centrada na “Filosofia do Não”. O conhecimento científico é um permanente questionar, um permanente “não” (mas não no sentido de negação e sim no de conciliação); cada nova experiência diz não à experiência antiga e assim avança o pensamento científico. Nessa linha, o erro assume um papel importante, pois aprendemos com ele.

Bachelard coloca no centro das discussões o conceito de obstáculo epistemológico e mostra que ele impede o avanço do espírito científico. Ou seja, tanto o conhecimento comum, usual,  quanto  o  conhecimento  científico,  tanto  o  empirismo  quanto  o  racionalismo,  se tomados num extremo, funcionam como obstáculos epistemológicos. O espírito científico deve ser dialético.

Ao propor o problema do conhecimento em termos de obstáculos epistemológicos, Bachelard não está se referindo a obstáculos externos (como a complexidade dos fenômenos, a debilidade dos nossos sentidos e do espírito humano) mas entende que no ato, em si, de conhecer aparecem entorpecimentos, confusões, por necessidade funcional. É isso que o leva a evidenciar que sempre se conhece contra um conhecimento anterior, dizendo não a conhecimentos mal adquiridos.

Do ponto de vista filosófico, a polarização para o empirismo (de um lado) ou para o racionalismo (do outro) acaba por enfraquecer a própria filosofia da ciência e se transforma em um obstáculo epistemológico. Alerta Bachelard que é importante e indispensável que ocorra uma alternância entre o empirismo e o racionalismo, pois estas duas doutrinas estão ligadas, se complementam sem que se precise falar em derrota de uma ou outra. Para ele, a ciência física contemporânea apresenta uma supremacia do racionalismo matemático. A ciência física contemporânea é uma imensa construção racional.

Em definitivo, a ciência instrui a razão. A razão deve obedecer à ciência, a ciência mais evoluída, a ciência que evolui… Em qualquer circunstância, o imediato deve ceder espaço ao construído.

Para Bachelard, o racionalismo deve ser aplicado à realidade, ser dialético, que se aplica,  se  modifica,  procura  no  real  aquilo  que  contradiz  (diz  não)  os  conhecimentos anteriores. Na base da ideia dos obstáculos epistemológicos está a concepção de ciência como algo em construção, como uma progressividade que evidencia o rompimento entre o conhecimento sensível (usual, comum) e o conhecimento científico.

Barchelard destaca alguns obstáculos à formação do espírito científico. Entre eles aparece  a  experiência  primeira  como  um  primeiro  obstáculo,  que  nos  faz  colocar  a experiência acima da crítica. Um segundo obstáculo, igualmente perigoso, é a tendência às generalizações, que nos leva a generalidades inadequadas, sem vínculos com as funções matemáticas essenciais do fenômeno.

A idéia de obstáculo epistemológico leva ao conceito de noção obstáculo. O conceito de corpúsculo como um corpo pequeno, noção já superada na Física Moderna, é um exemplo clássico; o coisismo, o substancialismo (explicação das propriedades pela substância) são outros exemplos, ou seja,  “tudo o que é fácil de ensinar é inexato”.

Para Bachelard a filosofia do espírito científico deve ser aberta, dispersa. Na verdade, cada experiência, cada hipótese, reclama sua filosofia pormenorizada. A filosofia do não desempenha um papel conciliador. Pensar corretamente o real é aproveitar as suas ambiguidades para modificar e alertar o pensamento. Dialetizar o pensamento aumenta a garantia de criar cientificamente fenômenos completos, de regenerar todas as variáveis degeneradas ou suprimidas que a ciência, como o pensamento ingênuo, havia desprezado no seu primeiro estado.

Ele afirma que, dentre todos os progressos alcançados pela humanidade o mais bem sucedido é o progresso científico.

Referindo-se ao emprego do conceito de massa como uma quantidade de matéria, assevera  que  é  fácil  de  ser  compreendido,  mas  está  associado  à  forma  primitiva  desse conceito. Exemplifica dizendo que é fácil para um psicólogo ensinar o conceito de “carga de afetividade”  associando-o  ao  de  massa.  Contudo,  a  analogia  com  a  massa,  nesse  caso, funciona como obstáculo pedagógico, pois limita o espírito científico. Com isso Bachelard nos ensina que na educação científica os obstáculos epistemológicos e as noções obstáculo podem   transformar-se   em   obstáculos   pedagógicos   e   os   professores   precisam   tomar consciência disso nas suas práticas didáticas.

Bachelard faz uso da evolução do conceito de “massa” para mostrar que o progresso filosófico de um conhecimento científico é um movimento que atravessa várias doutrinas na seguinte ordem dada: realismo ingênuo, positivismo, racionalismo, racionalismo completo e racionalismo dialético (sistema filosófico). Embora reconheça que a maior parte do conhecimento   científico   ainda   permanece   nos   estágios   de   evolução   filosoficamente primitivos, é fácil de ver que o sentido do avanço é similar para todos os conceitos. Talvez uma frase possa resumir este sentido: quando se avança no conhecimento científico, aumenta o papel das teorias.Fazemos aqui um breve resumo dos níveis de evolução que o conceito de massa atravessa, na óptica de Bachelard, i.e., segundo sua noção pessoal:

1º nível – é o conceito animista de massa (conceitua o grande) – realismo ingênuo;

2º nível – massa como quantidade de matéria (caracteriza um objeto), conceito ligado à experiência simples da utilização da balança – empirismo;

3º nível – (m=F/a) correlaciona massa, força e aceleração implicando um afastamento em relação ao realismo, ou seja, o conceito de massa se torna abstrato – racionalismo;

4º nível – na relatividade nem mesmo a massa de repouso define as características de um objeto, pois, não existe repouso absoluto – massa absoluta não tem significado na relatividade – noção deixa de ser simples para ser complexa – racionalismo completo;

5º nível – é o racionalismo dialético de Dirac – a propagação do «parêntesis» num espaço de configuração leva à massa dialética: massa positiva (já concebida) e massa negativa (sem raiz na realidade comum). Esta questão polêmica não pode ser interpretada por nenhuma das filosofias anteriores, só pode ser concebida num racionalismo aberto – racionalismo dialético.

Com a identificação da evolução do conceito de massa é possível entender o conceito perfil epistemológico. Bachelard esclarece que o perfil epistemológico sempre se refere a um dado conceito, e tem o mérito de confrontar com a cultura pessoal a importância relativa das cinco (05) filosofias enumeradas anteriormente, medindo a frequência de utilização de cada uma na evolução daquele conceito.

Poderíamos relacionar as duas noções de obstáculo epistemológico e de perfil epistemológico porque um perfil epistemológico guarda a marca dos obstáculos que a cultura teve que superar.

Bachelard conclui que a sequência apresentada para a noção de massa, ou seja, uma evolução que transita do realismo ingênuo→ empirismo → racionalismo clássico → racionalismo completo → ao racionalismo dialético é real, mostra a realidade epistemológica, ou seja, o pensamento científico se funda num pluralismo epistemológico e encontra na dialética a sua coesão.

O que fica claro em Bachelard é que o avanço do pensamento científico ocorre na direção da maior complexidade racional. Essa idéia aparece melhor quando entendemos o significado de perfil epistemológico, pois um conceito se torna mais abrangente e representa um progresso se evolui, transitando pelas cinco filosofias anteriormente enumeradas, a partir do realismo/empirismo em direção a um racionalismo dialético (abstrato).

Assim, fica claro que é preciso avançar em nosso perfil epistemológico na  direção de uma  construção  racional  cada  vez  mais  aberta,  mediante  a  identificação  e  crítica  aos obstáculos epistemológicos. Em outras palavras, é preciso dizer ”não“ ao conhecimento anterior; reconstruir incessantemente nosso conhecimento; gerar rupturas na organização do nosso próprio pensamento; aprender com nossos erros. Dessa forma avança a ciência.

Portanto, Bachelard reforça as idéias de Popper e Kuhn, com relação ao papel secundário da observação e da experiência primeira na produção do conhecimento científico. O caminho que garante o avanço do conhecimento humano não passa pela indução, mas é uma construção da mente do ser humano e tende a se tornar cada vez mais racional e abstrata.

A diferença é que Bachelard defende uma relação dialética entre o racionalismo e o realismo. Essas doutrinas, intercaladas pelo convencionalismo, formalismo, racionalismo aplicado, positivismo, empirismo (doutrinas que caracterizam o espectro epistemológico, ou seja, um ordenamento dos tipos de doutrinas filosóficas) estão conectadas, se complementam, e o verdadeiro espírito científico deve transitar livremente entre elas.

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