Capítulo 6: modelo científico por resolução de problemas – Subsídios para a Epistemologia

Larry Laudan

De todas as epistemologias vistas até aqui a de Larry Laudan (1945) tem o enfoque mais pragmatista. Entende Laudan que o conhecimento científico tem sido um empreendimento racional, porém associado a alguns traços persistentes, que são assim resumidos:

a) não acumulativo;

b) não se refutam teorias simplesmente por suas anomalias;

c) teorias não são aceitas apenas porque apresentam confirmação empírica;

d) mudanças e controvérsias são resolvidas conceitualmente, muito mais que empiricamente;

e) os princípios da racionalidade vão mudando com o tempo;

f) a regra é a coexistência de teorias rivais, tal que a evolução das teorias é uma atividade comparativa.

Para Laudan o objetivo da ciência é produzir teorias eficazes na resolução de problemas ou, um modelo científico por resolução de problemas.

Como não dispomos de meios para julgar se uma teoria é mais próxima da verdade que outra, não podemos dizer que a ciência tem sido progressiva nestes termos, mas podemos dizer que ela se encaminha para produzir teorias bem comprovadas, que têm aplicação prática e que conseguem predizer fatos novos.

Propugna Laudan que há dois tipos de problemas: os problemas empíricos e os problemas conceituais.

A eliminação de problemas conceituais constitui um progresso e, portanto, é possível que ocorra substituição de teorias com confirmação empírica por outras menos confirmadas, contanto que estas últimas resolvam dificuldades conceituais relevantes.

Se uma teoria nova pode fazer tudo o que sua predecessora faz e algo mais, então a teoria nova é evidentemente superior.

Laudan propõe que o progresso científico ocorre através de tradições de investigação: Uma tradição de investigação é um conjunto de supostos gerais acerca das entidades e processos de um âmbito de estudo, e acerca dos métodos apropriados que devem ser utilizados para investigar os problemas e construir teorias deste domínio.

Analogamente às teorias, em que são consideradas mais adequadas aquelas que resolvem mais problemas, uma tradição de investigação é mais adequada do que outra se o conjunto de teorias, que num dado momento a caracterizam, é mais adequado que as teorias que compõem a tradição de investigação rival. A ciência está em busca de teorias das quais se espera grande fertilidade, ou seja, interessa a taxa de progresso das teorias e da tradição de investigação.

Para Laudan, a coexistência de tradições de investigação rivais e de teorias rivais é a regra, em oposição a Kuhn para quem a existência de um único paradigma caracteriza a ciência normal, em cuja fronteira está a revolução científica. Laudan não está preocupado com a distinção entre ciência e não-ciência; todas as teorias, tanto as científicas quanto as de outro tipo, estão igualmente sujeitas a compromissos empíricos e conceituais . A única diferença é que no que chamamos de ciências, elas são, geralmente mais progressivas. Chama atenção a que todas as tentativas de buscar critérios de demarcação entre ciência e não-ciência têm sido um rotundo fracasso.

Os problemas são, para Laudan, o ponto central do pensamento científico e as teorias são o resultado final (problemas = perguntas da ciência e teorias = respostas). Uma teoria é boa se proporciona soluções satisfatórias a problemas importantes; o mérito de uma teoria está associado a sua capacidade de solução de problemas relevantes e não se ela é “corroborada” ou “bem confirmada”.

Problemas empíricos

Problema Empírico é qualquer coisa do mundo natural que nos surpreenda como estranha e que necessite de uma explicação (como e por que os corpos caem? é um exemplo). São aqueles de primeira ordem, cujas soluções pressupõem estudos dos objetos de um determinado estado de coisas real, ou pelo menos, pensado como estado de coisas real. Por exemplo, a existência de serpentes marinhas, relatadas pelos contos dos marinheiros da Idade Média, era um contrafato, mas se tratava de um problema empírico para a época.

Fatos e suas explicações e problemas empíricos e suas soluções são distinguidos por Laudan. Fatos são fatos mesmo que não os conheçamos enquanto um problema somente é um problema quando se torna conhecido. Problemas considerados relevantes para uma época podem deixar de ser para outra época, por questões puramente racionais.

Laudan alerta que todas as leituras que fazemos do mundo natural passam pelas lentes de  quem  as  lê,  ou  seja,  pelos  conceitos  e  pressupostos  que  dispomos  previamente  à observação. Assim, não há problema empírico livre de teorias, o que, aliás, parece ser, claramente, um ponto comum de todas as epistemologias contemporâneas

Os problemas empíricos podem ser: potenciais ou não resolvidos quando nenhuma teoria os resolveu adequadamente; resolvidos quando já solucionados satisfatoriamente por alguma teoria; anômalos são aqueles problemas resolvidos por teorias alternativas.

Nessa óptica, pode-se dizer que o progresso científico implica transformar problemas não resolvidos ou anômalos em problemas resolvidos. Um problema é entendido como resolvido se os cientistas creem que entendem porque a situação exposta por ele é como é, à luz de uma teoria, extraindo-se dela um enunciado, ainda que aproximado. Assim, fica clara a diferença entre explicar um fato e resolver um problema. Os fatos muito raramente são explicados porque sempre há discrepâncias entre os resultados teóricos e os dados de laboratório. Porém, os problemas empíricos frequentemente são resolvidos, pois para isso basta que os dados teóricos e de laboratório sejam aproximados.

Anomalias

Ao contrário de outros filósofos da ciência que consideravam a busca de resoluções de anomalias a razão em si da ciência, Laudan concorda que as anomalias são importantes, porém entende que o surgimento de uma anomalia suscita dúvidas a respeito da teoria que a está mostrando, mas que não é motivo suficiente para abandoná-la. Mesmo porque, todos os teste empíricos envolvem não uma, mas uma rede de teorias e apontar qual delas é falsa é arbitrário. Além disso, abandonar uma teoria porque os dados empíricos não coincidem com os teóricos significa supor que os dados são infalíveis enquanto na verdade, se sabe, são aproximados.

Quase todas as teorias têm instâncias anômalas e nem por isso foram abandonadas. Laudan admite que há anomalias muito agudas que resultam no abandono da teoria, mas discorda de Kuhn, por exemplo, que entende que a acumulação de muitas anomalias induz ao abandono  do  paradigma,  ao  que  Laudan  contrapõe  perguntando:  quantas  anomalias  são necessárias? Ou seja, é arbitrário dizer que são necessárias “n” ou “n+1” anomalias. Além disso, há casos em que uma única anomalia refuta uma teoria.

Problemas conceituais

Problemas conceituais são perguntas de ordem superior acerca da estrutura e consistência conceitual das teorias, sendo que estas (as teorias) foram criadas para responder perguntas de primeira ordem (perguntas empíricas).

Laudan entende que a história da ciência mostra que muitos dos grandes debates entre os cientistas defensores de teorias rivais têm ocorrido no campo conceitual mais do que no campo empírico. Muitas teorias importantes se tornaram mais claras e precisas através de esclarecimentos e especificações que tiveram origem  em críticas no campo conceitual. Este é um dos meios importantes que a ciência utiliza para crescer.

Os problemas conceituais podem ser de ordem interna ou externa. Problemas conceituais internos estão associados a ambiguidades ou circularidades no seio da teoria, que normalmente exigem um melhor esclarecimento da teoria. Os problemas conceituais externos são de três tipos:

i) tensões ou conflitos entre teorias rivais;

ii) inaceitabilidade conjunta de teorias, ou seja, duas teorias explicando de diferentes formas o mesmo fenômeno, acaba tornando uma delas mais plausível;

iii) quando surge uma teoria (T) que reforça outra (T’), se a teoria T não implica T’ por completo ocorre um problema conceitual.

As evidências históricas mostram que as teorias têm forte relação com a metodologia vigente  e  nesse  sentido  constituem  problemas  conceituais  internos.  A  solução  desses problemas gera modificações nas teorias ou nas metodologias, e isto funciona como força propulsora para o avanço da ciência.

Toda tradição de investigação está associada a uma série de teorias, muitas das quais serão rivais, mutuamente inconsistentes, já que algumas tentam melhorar e corrigir suas antecessoras. A tradição de investigação não oferece soluções ou respostas detalhadas a problemas específicos mas tão somente oferece as ferramentas necessárias para resolver problemas tanto empíricos como conceituais. Nesta medida sua evolução está ligada ao processo de resolução de problemas (evolui quando conduz à solução de um número crescente de problemas empíricos e conceituais). São exemplos de tradições de investigação rivais: a tradição ondulatória e a corpuscular para a luz.

Em desacordo com Lakatos e Kuhn, que sustentam  que os programas de pesquisa (ou paradigmas) possuem um núcleo rígido, Laudan afirma que tanto as teorias que constituem uma tradição de investigação quanto alguns dos seus elementos nucleares mais básicos vão mudando com o tempo, sem que isso implique uma nova tradição de investigação. Com frequência, os cientistas descobrem que é possível introduzir pequenas modificações nos supostos medulares da tradição de investigação para resolver anomalias e problemas conceituais sem resultar no abandono da tradição de investigação.

Entendemos que uma contribuição importante de Laudan é a ciência como uma atividade de resolução de problemas e sua tese a respeito da coexistência de teorias (ou paradigmas) rivais. Os seguidores de dada teoria ou paradigma se esforçam para resolver um número cada vez maior de problemas empíricos ou conceituais e quem ganha com isso é a ciência, que dessa forma cresce.

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