Capítulo 5: Lakatos – Subsídios para a Epistemologia

Imre Lakatos

Segundo Imre Lakatos (1922-1974) o avanço do conhecimento científico consiste na permanente substituição de programas de pesquisa científica regressivos por programas de pesquisa progressivos e, de forma subjacente, na constante substituição de hipóteses.

Os programas de pesquisa científica definem o conjunto de regras que indicam a rota a ser seguida pela investigação em uma determinada área do conhecimento e com isso garante a continuidade da pesquisa.

Embora Lakatos tenha sido discípulo de Popper, fez uma crítica ao falsacionismo dogmático de Popper (a idéia do avanço da ciência através de conjecturas e refutações) por entender que a metodologia dos programas de pesquisa científica não oferece uma racionalidade instantânea, isto é, pode levar muito tempo (décadas até) para que um programa se torne progressivo ou regressivo. A crítica a uma teoria, segundo ele, não objetiva morte rápida através da refutação; o programa é estruturado de forma a evitar essa consequência.

A ciência cresce através de hipóteses audazes e modificações que devem ser capazes de serem testadas, e algumas são eliminadas por refutações sólidas. Além disso, não há refutações sem a emergência de teorias melhores. Em outras palavras, a ciência não avança através de conjecturas isoladas, mas através de programas de pesquisa.

Lakatos defende como lógica de pesquisa científica o que ele chama de falsacionismo metodológico de base evolutiva, em que sobrevivem as teorias mais aptas, aquelas que apresentam excesso de conteúdo corroborado em relação às teorias anteriores e que antecipam fatos  novos.  Pode-se  dizer  que  isso  define,  para  Lakatos,  a  demarcação  entre  teorias científicas e não-científicas.

Ele distingue as teorias passivas (originadas da observação, como no empirismo clássico) das teorias ativas (que pressupõem atividade mental). O conhecimento autêntico está associado às teorias ativas e na ideia de que conforme cresce a ciência, diminui o poder da evidência empírica. Nesse sentido concorda com a tese de Popper e Kuhn de que o conhecimento é construído e não descoberto.

Em desacordo com Popper, como já referido, Lakatos argumenta que a falsificação por si só não se sustenta, pois não há falsificação sem emergência de uma nova teoria e esta deve oferecer alguma informação nova quando comparada com sua antecessora, além do que, entende que não existem testes cruciais capazes de refutar de forma repentina e definitiva uma teoria. Não são apenas os dados empíricos os juízes que decidem pela aceitação ou refutação de teorias, mas em alguns casos, as decisões e acordos  da comunidade científica. A esse critério mais liberal de demarcação, Lakatos chama de falsacionismo metodológico.

As teorias não são refutadas simplesmente porque se enfrentam com alguma inconsistência mas, ao contrário, o que os cientistas fazem é desenvolver um enorme esforço para salvá-las melhorando ou substituindo os seus aspectos problemáticos e preservando os não-problemáticos

Além disso, o que deve ser avaliado, segundo Lakatos, é uma sucessão de teorias e não uma teoria dada. As teorias formam séries de teorias que se agrupam em programas de pesquisa científica os quais se caracterizam por uma certa continuidade que relaciona seus membros.  A  ciência,  como  um  todo,  pode  ser  considerada  um  imenso  programa  de Investigação baseado em conjecturas que devem ter mais conteúdo empírico do que suas antecessoras.

Um programa de pesquisa consiste em regras metodológicas, algumas das quais nos dizem as rotas que devemos seguir na pesquisa científica – que constituem sua heurística positiva – e outras nos dizem quais caminhos devem ser evitados – ou seja, sua heurística negativa.

A heurística negativa está associada (protege) ao núcleo firme ou núcleo duro do programa de pesquisa, que se constitui de um conjunto de básico de hipóteses protegidas contra refutações pelo que se chama de cinturão protetor.

A heurística positiva está vinculada ao cinturão protetor: um conjunto de hipóteses auxiliares contra as quais colidem as refutações e as contrastações.

O núcleo firme é a característica que define o programa de pesquisa e não deve ser refutado pelos defensores do programa. Por exemplo, o núcleo firme da mecânica newtoniana se compõe das leis de Newton mais a atração gravitacional.

A heurística negativa do programa impede que apliquemos o ‘modus tollens’ (Modus tollens significa modo/tentativa de refutação) a este ‘núcleo firme’. Pelo contrário, devemos utilizar nossa inteligência para incorporar e inclusive inventar hipóteses auxiliares que formem um cinturão protetor em torno do centro, e contra elas dirigir o ‘modus tollens’. O cinturão protetor de hipóteses auxiliares deve receber os impactos das contrastações e para defender o núcleo firme, será ajustado e reajustado e inclusive completamente substituído. Um programa de investigação tem êxito se ele conduz a uma mudança progressiva de problemática; fracassa se conduz a uma mudança regressiva.

A heurística positiva estabelece um programa como uma sequência de modelos cada vez mais complicados que simulam a realidade e cuja ordem é preconcebida através de um plano decidido no gabinete do cientista teórico. Pode ser até que o núcleo firme venha a ser abandonado em algumas circunstâncias, mas essa não é a regra. Na verdade, a heurística positiva procura a verificação das teorias e não a refutação, mantendo a marcha do programa de investigação.

Nesse sentido é que Lakatos discorda de Popper, concebendo a ciência (ou os programas de pesquisa) não como uma alternância de conjeturas e refutações empíricas, mas entendendo que há uma diversificada pauta de avanços teóricos e freios empíricos nesse processo.

O cinturão protetor é caracterizado pela constante invenção de hipóteses auxiliares, as quais podem sofrer modificações, refutações, avanços e retrocessos, idas e vindas, e cujo objetivo é proteger o núcleo firme do programa de pesquisa.

Na visão de Lakatos as teorias não são simplesmente refutadas ao se depararem com inconsistências, mas, ao contrário, um enorme esforço é feito pelos cientistas para salvá-las, melhorando ou substituindo os seus aspectos problemáticos e preservando os não problemáticos, ou seja, nem o falsacionismo ingênuo (de Popper) nem a brusca revolução científica (de Kuhn) se sustentam totalmente.

Aliás, Lakatos contraria a visão de Kuhn (1978) no sentido de que entende que a competição de programas de pesquisas é a regra, contrariamente à idéia de que a ciência madura é caracterizada pela adesão a um único paradigma.

Essa competição entre os programas de pesquisa fomenta o avanço da ciência. Um programa pode se tornar regressivo quando não consegue mais produzir fatos novos e não dá conta de explicar suas próprias refutações, ou então, as explicações ocorrem através de hipóteses ad hoc. Há uma diferença fundamental entre hipóteses ad hoc e hipóteses auxiliares, que não deve gerar confusões. As hipóteses auxiliares integram o cinturão protetor e são refutáveis (testáveis) enquanto as hipóteses ad hoc o não são.

Um programa de pesquisa é progressivo quando produz fatos novos, faz novas previsões e algumas dessas previsões são corroboradas.

Para Lakatos, a reiterada substituição de programas de pesquisa regressivos por programas de pesquisa progressivos caracteriza o avanço do conhecimento científico. Entretanto, o abandono de um programa pode não ser definitivo. Ele pode ser retomado mais tarde, às vezes décadas depois, à medida que o avanço tecnológico oferece a possibilidade de novos e engenhosos testes empíricos capazes de superar  os problemas antes enfrentados pelas hipóteses auxiliares.

Como já referido, embora Lakatos atribua a Popper enorme influência em suas idéias acabou rejeitando a essência da teoria de Popper, a sequência de conjecturas e refutações, em nome da metodologia  dos programas de pesquisa e  da competição  de programas rivais.

sumário