Capítulo 3: Hipotético-dedutivismo – Subsídios para Epistemologia

Karl Popper

As  idéias  centrais  da  epistemologia  de  Karl  Popper  (1902-1994)  podem  ser sintetizadas no racionalismo crítico, o conhecimento científico entendido como uma construção do ser humano; na refutabilidade ou testabilidade como critério de demarcação entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento; e nos conceitos de conjeturas e refutações como uma concepção inovadora da metodologia científica.

A ideia vigente até então era de que a ciência se distingue da pseudociência pelo uso do método empírico, que as teorias eram obtidas por indução, e que o  critério de demarcação era o da verificabilidade. Os indutivistas acreditavam que é possível deduzir as teorias científicas de proposições simples que descrevem estados de coisas, que em princípio podem ser estabelecidas ou rejeitadas pela observação e experimentação, ou seja, o conhecimento oriundo da observação.

Popper critica o método da verificabilidade e procura demonstrar que:

O conceito positivista de «significado» ou «sentido» (ou de verificabilidade, confirmabilidade indutiva, etc.) não é apropriado para realizar a demarcação entre ciência e metafísica, simplesmente porque a metafísica não é necessariamente carente de sentido, embora não seja uma ciência (Popper, 1982, p. 281).

Ele propõe que toda a boa teoria científica proíbe certas coisas de acontecer; que a teoria que não puder ser refutada por um certo acontecimento concebível não é científica, ou seja, uma teoria científica é sempre susceptível de refutação; que todo teste genuíno ou contrastação de uma teoria é uma tentativa de refutá-la; se o teste genuíno da teoria resultar numa confirmação então a teoria é corroborada sem, no entanto, confirmá-la; que as confirmações relevantes só devem ser consideradas relevantes se resultarem de predições arriscadas, ou seja, são plausíveis acontecimentos incompatíveis com a teoria e que possam refutá-la.

Para salvar uma teoria da refutação, podem, os seus seguidores, formular hipóteses ad hoc (não refutáveis), o que, para Popper, trata-se de um procedimento que avilta o padrão científico. Para ele, qualquer hipótese auxiliar deve ser refutável.

Pode-se dizer, resumidamente, que o critério que define o ‘status’ científico de uma teoria é sua capacidade de ser refutada ou testada.

Um exemplo de teoria não refutável é a astrologia, pois, suas profecias são tão vagas que podem explicar qualquer coisa capaz de refutá-la. Essas profecias dificilmente falham, por isso tornam a teoria irrefutável. Na visão de Popper trata-se de uma pseudociência.

Para Popper, o critério de refutabilidade permite traçar uma linha divisória entre as ciências empíricas e todas as outras ciências de caráter religioso, metafísico ou simplesmente pseudocientífico, ou seja, o critério da refutabilidade ou testabilidade é a solução para o problema da demarcação (entre ciência e não-ciência).

O indutivismo defende que é justificável obter as leis e teorias científicas a partir dos fatos pela utilização da lógica indutiva, ou seja, a observação antecede às teorias.

Popper argumenta que não se justifica inferir resultados universais a partir de resultados singulares, mesmo depois de um grande número destes resultados singulares. Até porque, não é possível especificar “quantos” são necessários para se satisfazer ao critério “um grande  número  de  observações”,  ou  seja,  independentemente  de  quantos  cisnes  brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos.

Se quisermos explicar o mundo que nos rodeia, o procedimento mais razoável de que dispomos para aceitar tal desafio é o método crítico ou das tentativas de refutação: fazer conjeturas, chegar a conclusões genéricas e tentar refutá-las incessantemente. Nas palavras de Popper:

Precisamos propor teorias, ousadamente; tentar refutá-las; aceitá-las tentativamente, se fracassarmos nesse intento.

Desse ponto de vista, todas as leis e teorias são essencialmente tentativas, conjeturais, hipotéticas – mesmo quando não é mais possível duvidar delas.

O progresso contínuo é para Popper uma característica essencial do caráter racional e empírico do conhecimento científico. Entretanto, ele deixa claro que ao falar dessa expansão do conhecimento científico não está se referindo a um processo de acumulação, mas, de uma reiterada substituição de teorias científicas por outras cada vez mais satisfatórias, que nos dizem mais, isto é, teorias que contêm mais informação empírica ou conteúdo e, por isso mesmo, com maior capacidade explicativa, maior poder de previsão, maior testabilidade.

A história da ciência, como a história de todas as idéias humanas, é feita de sonhos irresponsáveis, de erros e de obstinação. Mas a ciência é uma das poucas atividades humanas – talvez a única – em que os erros são criticados sistematicamente (e com freqüência corrigidos). Por isso podemos dizer que, no campo da ciência, aprendemos muitas vezes com nossos erros.

Parece-nos estar associada ao critério de refutação a ideia do erro (tentativa e erro), tese que também é defendida por outros filósofos, como Bachelard, e por isso será retomada mais adiante.

Se, no entanto, o progresso exige que as teorias tenham mais conteúdo isso significa também que devemos utilizar teorias com menor probabilidade (no sentido do cálculo de probabilidades) em oposição ao indutivismo, que acredita na verificabilidade das teorias, ou seja, uma maior probabilidade dessas teorias corresponderem à verdade.

Popper rejeita o método indutivista como critério de demarcação e propõe a lógica falsacionista, ou seja, a testabilidade e refutabilidade para distinguir entre teorias científicas e não científicas.

O progresso da ciência, tal como entende o falsacionista (seguidor das idéias dePopper), pode ser resumido da seguinte forma:

A ciência começa com problemas, problemas estes associados à explicação do comportamento de alguns aspectos do mundo ou universo. Hipóteses falsificáveis são propostas pelos cientistas como soluções para o problema. As hipóteses conjeturadas são  então  criticadas  e  testadas.  Algumas  serão  rapidamente  eliminadas.  Outras podem se revelar mais bem-sucedidas. Estas devem ser submetidas a críticas e testes ainda mais rigorosos. Quando uma hipótese que passou por uma ampla gama de testes rigorosos com sucesso é eventualmente falsificada, um novo problema, auspiciosamente bem distante do problema original resolvido, emergiu. Este novo problema  pede  a  invenção  de  novas  hipóteses,  seguindo-se  a  crítica  e  testes renovados. E, assim, o processo continua indefinidamente (Chalmers, 1999,  p. 73).

Para o empirista-indutivista ingênuo o conhecimento científico é confiável e seguro porque deriva de uma base segura: as observações neutras, objetivas, que podem ser averiguadas por qualquer observador. Em outras palavras, não é admitido nenhum elemento pessoal, subjetivo.

Para Popper, contrariamente, as expectativas, hipóteses ou teorias precedem até mesmo os problemas.  Aliás, os problemas somente aparecem quando as teorias trazem dificuldades ou contradições. Assim, os problemas suscitam o desafio de aprender, de avançar no conhecimento.

Ou seja, a observação não é fonte do conhecimento. A observação é sempre seletiva, nunca se resume simplesmente às sensações ou percepções do observador, pois, se assim fosse ele se limitaria a transcrever em relatórios o resultado dessas sensações e percepções. De fato, a observação é determinada pelas expectativas e problemas que habitam o espírito do investigador e que foram retiradas (as expectativas) de um conhecimento anterior.

Não existe nenhuma observação que não esteja impregnada de teoria, embora Popper admita que quando se trata de observações inesperadas, essas podem suscitar problemas, se entram em conflito com nossas expectativas.

A ciência busca encontrar teorias verdadeiras (que guardem a melhor correspondência possível com os fatos):  buscamos a verdade, mas podemos não saber quando a encontramos; pois não dispomos de um critério para reconhecê-la, mas somos orientados assim mesmo pela ideia da verdade como ‘princípio regulador’  .

A ciência busca sempre uma verdade interessante e nova e embora não seja possível provar que uma teoria é verdadeira, é possível provar sua falsidade.

O racionalismo crítico de Popper admite que a racionalidade se trata de uma atitude crítica na busca de teorias, ainda que falíveis, que permitam progredir, ir além das teorias precedentes, isto é, que consigam resistir a testes cada vez mais rigorosos.

O racionalismo popperiano é realista, ou seja, a realidade existe. Contudo, as teorias científicas serão sempre aproximações, tentativas de descrever essa realidade sem nunca saber se, de fato, correspondem a ela. É também indeterminista, no sentido de que, para ele, o futuro não está contido no presente que o determina integralmente.

Entendemos que o debate desencadeado por Popper representou um enorme avanço para a filosofia da ciência, principalmente no que se refere à noção de falsificação como critério de demarcação entre ciência e não-ciência e ao método crítico, ou seja, princípio fundamental de que a ciência é uma construção do ser humano a partir de conjecturas controladas por refutações como forma de se obter o progresso científico.

Julgamos, entretanto, que uma limitação importante do falsacionismo de Popper é o fato de que as teorias não podem ser rejeitadas de forma concludente simplesmente porque os enunciados observáveis que servem de base para a falsificação podem vir a ser falsos à luz de progressos  posteriores.  Em outras  palavras, as  observações  refutadoras  é  que  podem ser falsas. Ou seja, os enunciados observacionais são falíveis. Se os cientistas tivessem seguido rigorosamente o falsacionismo, muitas teorias físicas que obtiveram grande sucesso, como por exemplo a mecânica de Newton, nunca teriam sido desenvolvidas, pois teriam sido rejeitadas logo na sua nascença. Além disso, é natural que os cientistas considerem uma teoria com grau de plausibilidade maior se ela consegue passar com sucesso por testes que tentam refutá-la.

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