Capítulo 2: Indutivismo – Subsídios para Epistemologia

Indutivismo

Começaremos esta série de breves textos sobre epistemologias do século XX com este que focaliza uma postura epistemológica – o indutivismo – anterior a esse século por que foi principalmente em oposição a ela que surgiu outra – o falsacionismo – que deu início à série de epistemologias, ou filosofias da ciência, abordadas nestes textos.

Chama-se indutivo ao tipo de raciocínio que nos leva das partes ao todo, ou seja, de enunciados singulares a enunciados universais, ou ainda, de casos particulares a generalizações.

Em termos formais, o chamado princípio da indução pode ser enunciado da seguinte forma:
“Se em uma ampla variedade de condições observa-se uma grande quantidade de As e se todos os As observados apresentarem, sem exceção, uma propriedade B, então todos os As têm a propriedade B”. Embora seja grande o número de As observados apresentando a propriedade B, não são observados todos os As mas induz-se que todos os As apresentam a propriedade B.

Denomina-se indutivismo à filosofia da ciência que supõe que o conhecimento científico é produzido por indução: observa-se meticulosamente, mede-se rigorosamente, obtém-se um bom número de dados confiáveis e chega-se (induz-se) uma lei científica.

Para o indutivista, o conhecimento científico é construído a partir da base segura que proporciona a observação. Quer dizer, a ciência começa com a observação. Para ele, as observações são enunciados singulares confiáveis que constituem a base empírica segura da qual se derivam enunciados universais, i.e., as leis e teorias que constituem o conhecimento científico.

Quando faz referência a uma base empírica segura, o indutivista quer dizer que ela é constituída por um grande número de observações, que tais observações foram feitas em uma ampla variedade de situações e que nenhuma delas contradiz a lei universal derivada (induzida).

Uma vez obtidos os enunciados universais (leis científicas), eles podem gerar conseqüências – explicações, predições, hipóteses – que podem ser verificadas experimentalmente e gerar conhecimentos derivados.

Chama-se dedutivo o tipo de raciocínio que deriva consequências de enunciados universais e denomina-se dedução o processo correspondente.

Nessa óptica, as leis e teorias são obtidas por indução a partir de fatos obtidos através da observação e as explicações e predições são feitas por dedução a partir das leis e teorias induzidas.

Isso significa que em última análise a fonte da verdade está sempre na experiência, no registro empírico. Daí usar-se também o termo empirismo-indutivismo.

Para ilustrar o que foi dito até aqui, consideraremos o clássico exemplo dos cisnes brancos: se muitos cisnes fossem observados, em uma ampla variedade de situações, e de todos eles fossem brancos chegar-se-ia, por indução, à lei universal de que todos os cisnes são brancos, da qual poder-se-ia deduzir conseqüências sobre o fato de todos os cisnes serem brancos.

Este mesmo exemplo serve para apontar fragilidades do empirismo-indutivismo: as observações são falíveis (alguns cisnes poderiam não ser exatamente brancos);

há muitos enunciados universais compatíveis com um determinado conjunto de enunciados singulares; por exemplo, todos os cisnes são brancos ou negros (apesar de que nenhum cisne negro tenha sido ainda observado) ou todos são brancos ou amarelos (idem), ou …

As observações dependem de teorias; alguma teoria sempre precede os enunciados observacionais  (se  vamos  observar  cisnes  é  por  que  pressupomos  que  estes animais existem e têm uma certa coloração).

Cabe aqui, no entanto, destacar que opor-se ao indutivismo não significa descartar a indução. É um erro pensar que, na prática, a indução não leva a teorias, ou conclusões mais gerais. Os cientistas usam, de fato, a indução para ir de um conjunto limitado de dados a uma conclusão mais geral. Mas provavelmente não o fazem acreditando que essa conclusão é única, ou universal. Então, o problema não é a indução em si, mas o indutivismo enquanto postura  epistemológica,  quer  dizer,  o  erro  está  em supor  que  o  conhecimento  científico “verdadeiro”, as “leis universais”, se obtém por observação e indução.

Na ciência, teoria e experimentação interagem permanentemente e nessa interação a indução, assim como a dedução, tem um papel central. Porém, o empirismo-indutivismo, como deverá ficar claro nos textos que seguem, não é a postura epistemológica, ou a filosofia da ciência, aceita nas epistemologias contemporâneas.

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