Capítulo 12 – Modelos Científicos – Subsídios para epistemologia

Ernst Mayr

Biólogo evolucionista, Ernst Mayr (1904-2005), dedicou sua vida para dar uma nova roupagem à teoria de evolução de Charles Darwin (1809-1882). Dispensou grande esforço, em algumas de suas obras, para analisar as teorias, os fundamentos e a evolução das ideias hoje dominantes na moderna Biologia. Esteve preocupado em mostrar que a Biologia se distingue das ciências físicas desde seus princípios básicos e metodologias de construção das teorias científicas, até sua influência na visão de mundo do ser humano atual.

Entende que houve uma valorização excessiva da Física, e da Matemática, na conceitualização de ciência nos últimos séculos e uma consequente assertiva arrogante de que a Biologia é uma ciência inferior .

Segundo Mayr, a Biologia ao longo de sua história sofreu constantes influências internas (no interior do próprio campo de pesquisa) e externas: ideologias universais como o essencialismo; dogmas religiosos como o criacionismo. Mas, alguns fatores muito influentes derivam de outros campos da ciência: o fisicalismo externo (incluindo o determinismo e o extremo reducionismo), que prevalecia no pensamento ocidental após a revolução científica, influenciou fortemente a formação teórica em biologia, por vários séculos, muitas vezes, inclusive exatamente contra aquilo que hoje é evidente.

Discorda que a Física seja o paradigma da ciência e que quando se entende Física pode-se entender qualquer outra ciência, inclusive Biologia. Afirma  que  todas as tentativas de circunscrever o mundo vivo às leis naturais da Física falharam porque os organismos vivos são sistemas complexos, organizados e principalmente porque foram afetados durante bilhões de anos por processos históricos, o que não ocorre com o mundo inanimado.

Todavia, concorda com a convicção crescente da moderna filosofia da ciência de que não há verdades absolutas e que as teorias devem ser continuamente testadas em um espírito de coexistência de teorias alternativas, o que torna a ciência mais flexível e aberta. Entende que cada ciência requer seu próprio método, tendo presente que criatividade, observação, experimentação, análise, construção de hipóteses e classificação são aspectos tão valiosos para a Física quanto para a Biologia. Por isso a filosofia da Biologia de Mayr enfatiza a Biologia como uma ciência autônoma, amparada em parâmetros independentes das ciências físicas

De sua visão de biólogo, Mayr assevera que a persistente tentativa de adotar princípios e conceitos da Física para todas as outras ciências que pretendem ser genuinamente científicas é um erro.

Alguns desses princípios básicos:

1) essencialismo ou tipologia, entendimento de que a variedade de fenômenos da realidade consiste de um número limitado de essências ou tipos e que cada um dá origem a uma classe independente:  triângulos, por exemplo, são diferentes dos retângulos e não é possível conceber uma figura intermediária;

2) determinismo trata da possibilidade de predição absoluta do futuro com base no conhecimento do mundo presente;

3) reducionismo crença de que a explicação de um sistema, ou objeto, ou ser vivo fica resolvida com o conhecimento de todas as suas menores partes;

4) busca de leis naturais universais com a pretensão de serem válidas para todas as ciências.

Essas características, fisicalistas, não se aplicam à Biologia, nem a outras ciências (Antropologia, Psicologia, Sociologia) pela complexidade dos sistemas biológicos e porque o acaso desempenha papel fundamental nessas áreas.

Ele afirma que algumas tentativas de se desgarrar do monopólio da Física acabaram escorregando em outra armadilha: passaram a invocar forças ocultas como o vitalismo e a teleologia para explicar os organismos vivos.

O vitalismo acreditava que os movimentos e todas as manifestações da vida eram controlados por uma força invisível a vis vitalis, assim como o movimento dos planetas é controlado pela gravitação. Todas as experiências realizadas na tentativa de demonstrar a existência da vis vitalis fracassaram e o vitalismo teve de ser abandonado.

A teleologia é o princípio pelo qual os processos têm um fim definido ou uma meta. A teleologia teve duração milenar, apoiada principalmente pelas crenças dos cristãos (na ressurreição) e na esperança de todos em um futuro melhor.

Segundo Mayr, a Biologia compõe-se de dois campos distintos: a Biologia funcional (mecanicista) e a Biologia histórica (evolucionista). A primeira lida com a fisiologia de todas as atividades dos organismos vivos, incluindo os processos celulares e do genoma. A segunda envolve todos os aspectos relacionados com a evolução e torna indispensável o conhecimento da história.

Os processos funcionais podem ser explicados de forma mecanicista, mas a Biologia evolucionista é muito diferente das ciências exatas, pois lida com fenômenos únicos como a extinção dos dinossauros, o aparecimento do ser humano, a origem das novidades evolutivas, a explicação da diversidade orgânica, etc.. Não há como explicar fenômenos únicos através de leis universais. Esse é um dos argumentos fundamentais porque a Biologia requer uma filosofia independente.

Conceitos e princípios específicos precisaram ser construídos para que a Biologia fosse reconhecida como ciência: a complexidade dos sistemas vivos é um conceito biológico que tem a ver com a riqueza de propriedades emergentes, das quais surgem qualidades como reprodução, metabolismo, replicação, adaptação, crescimento e organização hierárquica. A evolução é um conceito relacionado com a constatação de que o cosmos, o mundo vivo, está em permanente mudança (evolução). O conceito de biopopulação é talvez a maior  diferença entre o mundo inanimado e o vivo pois cada indivíduo é único (…) não existem dois entre os 6 bilhões de seres humanos que sejam iguais. A causalidade dual decorre do fato de que os processos biológicos são controlados por leis naturais e também por programas genéticos contidos no genoma. A seleção natural de Darwin tem a ver com o processo de eliminação e adaptação, ou seja, os indivíduos menos adaptados são os primeiros a serem eliminados a cada geração, sendo que têm mais chances de sobreviver e se reproduzir os mais bem-adaptados.

Mayr destaca um novo método introduzido pela Biologia evolucionista:

o das narrativas históricas.

O cientista histórico constrói uma narrativa histórica que depois tem seu valor explicativo testado. Um exemplo clássico de narrativa histórica: inicialmente se atribuía a extinção dos dinossauros a uma epidemia, mas sérias objeções foram levantadas contra essa hipótese.  Uma  nova  proposta  então  atribuía  a  extinção  a  uma  catástrofe  climática,  mas também não houve indícios de tal evento climático. O físico Walteer Alvarez postulou, então, que a extinção teria ocorrido pelas consequências do impacto de um asteróide na Terra. Nenhuma observação posterior entrou em contradição com essa teoria e ela ganhou adesão.

Assim,  enquanto  a  observação  e  a  experimentação  são  muito  importantes  para  a Biologia  funcional  e  para  as  ciências  físicas;  na  Biologia  evolucionista  as  narrativas históricas e a comparação de evidências variadas passaram a ganhar fundamental destaque.

Reducionismo x visão holista

Para Mayr, o reducionismo fisicalista não pode explicar sistemas complexos: isolar todas as menores partes, ou seja, conhecer exaustivamente prótons, elétrons, neutrinos, quarks ou quaisquer outras partículas elementares não ajudaria a explicar a origem da vida.

É indispensável uma abordagem que inclua o estudo das interações em níveis superiores, e esta, é a abordagem holística. Ninguém conseguiria inferir a estrutura e o funcionamento de um rim apenas com um catálogo completo de todas as moléculas de que está composto. Este argumento é válido também para sistema inanimados. A combinação do cabo (haste) e da cabeça do martelo é que permite entender as propriedades do martelo enquanto martelo, e não o estudo detalhado da estrutura da madeira da haste até o nível molecular e atômico.

O fracasso do reducionismo explicativo também enfraqueceu o sonho de unificação da ciência, ou seja, de redução das leis e teorias de um campo da ciência às leis e teorias de algum campo mais básico, em particular, da ciência física.

Mayr   sugere   uma   nova   abordagem   para   as   ciências   biológicas,   baseada   na compreensão de que:

  • –  sistemas  biológicos  são  sistemas  ordenados,  e  suas  propriedades  não  vêm  apenas  das propriedades químico-físicas dos componentes, mas sim da sua organização;
  • – há um sistema de níveis de organização em que as propriedades dos sistemas superiores não são necessariamente redutíveis a propriedades inferiores;
  • – sistemas biológicos armazenam informação historicamente adquirida;
  • – frequentemente emergem propriedades nos sistemas complexos, que não são explicadas através da análise de seus componentes .

Se é possível afirmar que as grandes descobertas da Física do século XX mudaram a visão de mundo dos “cientistas modernos” (isso porque é preciso ter formação fisicalista para poder compreender tais contribuições), de outro lado, a teoria de Darwin modificou a visão de mundo das “pessoas comuns” de uma forma tão drástica, como não havia ocorrido antes. O impacto das ideias de Darwin se deve, principalmente, à evolução através da seleção natural, que introduziu a ideia da descendência comum, ou seja, em termos zoológicos nada mais somos que macacos especialmente evoluídos. Darwin explicou através da evolução e seleção natural  todos os fenômenos que antes necessitavam invocar forças sobrenaturais.

Mas, adverte Mayr, a variação darwiniada não se baseava em leis newtonianas e isso não era aceitável para os cientistas e filósofos deterministas da época, para quem qualquer causa ou evento que ocorresse de modo regular era chamado de lei. As teorias eram baseadas em leis. A questão é que na Biologia as regularidades não se relacionam com aspectos básicos da matéria como na Física, mas estão restritas ao tempo e ao espaço, e sujeitas a muitas exceções. Por isso, hoje, a visão mais aceita é a de que as teorias em biologia evolucionista estão baseadas em conceitos muito mais do que em leis.

Mayr chama atenção para a impossibilidade de espremer todas as outras ciências para dentro do quadro conceitual das ciências físicas, destacando com propriedade, as diferenças conceituais e metodológicas da Biologia como ciência genuína. A ciência, segundo Mayr, avança  de maneira muito semelhante à do mundo orgânico ao longo do processo darwiniano. O processo epistemológico, assim, é caracterizado por variação e seleção.

A Biologia organiza seus conhecimentos em estruturas conceituais e não em leis. Os conceitos possuem maior flexibilidade e aproveitamento heurístico. O progresso da ciência biológica consiste em grande medida no desenvolvimento de novos conceitos e princípios (classificação, seleção, evolução, espécie, taxa, descendência, aptidão, variedade, causalidade, etc.)  e  no  permanente  refinamento  e  articulação  desses  conceitos  e,  ocasionalmente, eliminação de conceitos errôneos.