Capítulo 11 – Modelos Científicos – Subsídios para epistemologia

Mario Bunge

 

Físico teórico argentino, Mario Bunge (1919), atualmente professor de Filosofia da Ciência na Universidade de Mc’Gill, em Montreal, no Canadá, afirma que a Física tem constituído o paradigma da ciência e o principal provedor de materiais para a elaboração filosófica. Mas, os físicos passaram a adotar uma filosofia que ele denomina operacionalismo (um símbolo físico ou equação tem significado se diz respeito a alguma operação possível), que é um credo ortodoxo.

Para Bunge, o operacionalismo caracteriza-se por alguns dogmas que são uma versão extrema do empirismo: a observação é fonte de conhecimento; hipóteses e teorias são sínteses indutivas; as teorias não são criadas, mas descobertas; o objetivo das teorias é sistematizar a experiência humana; teorias que contêm conceitos que não vêm da observação (ex: o conceito de campo), são pontes matemáticas; e outros mais. Bunge critica-os, um a um, porque entende que constituem uma falsa filosofia da Física e afirma que na realidade, nenhum físico iria muito longe se fosse agir em obediência a eles, pois nem refletem a efetiva pesquisa nem a promovem.

Em outras palavras, ele quer nos ensinar que a filosofia empirista-indutivista ainda presente na Física, e na ciência em geral, precisa ser substituída por uma visão filosófica mais contemporânea, que ajuda o cientista a ser mais crítico e criativo.

O ser humano, segundo Bunge, tenta entender o mundo através da sua inteligência imperfeita, mas aperfeiçoável. Nesse processo, constrói a ciência, um crescente corpo de ideias que se estruturam em um conhecimento racional, exato, verificável e consequentemente falível.

Ciência formal e ciência fática (factual)

Bunge entende que nem toda a investigação científica está em busca de conhecimento objetivo e nesse sentido divide a ciência em formal (ideal) e fática (material).

Ciência Formal: incluem-se nesta categoria a Lógica e a Matemática, pois embora produtoras de conhecimento racional, sistêmico e verificável os seus objetos de estudo não fornecem informações sobre a realidade. Tratam de entes abstratos, que só existem na mente humana.

ex.: “No mundo real encontramos 3 livros, no mundo da ficção construímos 3 discos voadores. Porém,  quem já viu um 3, um simples 3?”

Ciência  Fática:  baseia-se  na  formulação  de  hipóteses  a  respeito  de  fatos  e/ou  objetos materiais.   Os   enunciados   fáticos   devem  ser   verificáveis   direta   ou   indiretamente;   o conhecimento  não  é  apenas  convencional,  mas  passa modelagem dos fatos através da experiência.

Os traços principais da ciência da natureza são a racionalidade e a objetividade. Entende-se por racionalidade tudo o que é constituído imagens, modelos, etc..  por conceitos, juízos, raciocínios, as ideias, tal que elas possam se combinar de acordo com um conjunto de regras lógicas para produzir novas ideias, ou seja, inferência dedutiva. Essas ideias não são um “amontoado caótico” mas se organizam em sistemas de ideias – a ciência é, portanto, sistêmica.

Por objetividade entende que o conhecimento científico concorda aproximadamente com o objeto de estudo; que as ideias se adaptam em alguma medida aos fatos (observação e experimentação) . Esses traços das ciências fáticas,  fornecem um conjunto de características assim, por ele, enumeradas:

1) o conhecimento científico é fático (parte dos fatos através da curiosidade e sempre retorna a eles);

2) o conhecimento científico transcende os fatos (vai além das aparências);

3) a ciência é analítica (a análise não é um objetivo, mas sim uma ferramenta);

4) a investigação científica é especializada (a especialização é uma consequência da analiticidade);

5)  conhecimento científico é claro e preciso (a ciência torna preciso o que o senso comum conhece de maneira nebulosa);

6) o conhecimento científico é comunicável (não é privado, mas sim público, a comunicabilidade é possível  graças  a  sua  precisão);

7)  o  conhecimento  científico  é  verificável  (o  teste  das hipóteses fáticas é empírico);

8) a pesquisa científica é metódica (toda a pesquisa é planejada no sentido de que o cientista sabe o que busca e como encontrá-lo);

9) o conhecimento científico é sistêmico (as teorias formam sistemas de idéias conectadas logicamente entre si);

10) o conhecimento científico é geral (o cientista ocupa-se de fatos singulares na medida em que  estes  são  membros  de  uma  classe geral  ou  casos  de  uma  lei);

11)  o  conhecimento científico é legal (busca leis/regularidades);

12) a ciência é explicativa (tenta explicar a natureza em termos de leis e as leis em termos de princípios);

13) o conhecimento científico é preditivo (a predição funda-se em leis e informações específicas fidedignas);

14) a ciência é aberta (as noções a respeito da natureza não são finais, estão em permanente movimento, são falíveis);

15) a ciência é útil (porque é eficaz na promoção de ferramentas para o bem ou para o mal).

Requisitos para o conhecimento científico

O  que caracteriza o conhecimento científico é sua verificabilidade… Verificabilidade no sentido de Bunge tem a ver com o modo, meio ou método através do qual se apresentam problemas científicos e se colocam à prova as soluções propostas. Não se trata de obter a verdade. A verdade é aceita sempre provisoriamente porque os dados empíricos não são infalíveis. Para que algo mereça ser chamado de científico, devemos ser capazes de descrever objetivamente os procedimentos utilizados para obter os dados que nos levaram a um enunciado, de maneira que possam ser reproduzidos por quem quer que se disponha a aplicá-los.

O método científico

Bunge propõe a seguinte reflexão:

existe uma técnica infalível para inventar e verificar hipóteses científicas, ou seja, existe um “método científico”?  A resposta é que semelhante arte, jamais foi inventada e poder-se-ia dizer que jamais o será, a menos que se modifique radicalmente a definição de ciência. Não há regras infalíveis que garantam o descobrimento de novos fatos e a invenção de novas teorias.

O “método científico”, se assim quisermos chamar, apenas indica o caminho, fornece uma luz, possui algumas regras, que não são de ouro senão plásticas, segundo Bunge. A indução, a analogia, a dedução de suposições extracientíficas são exemplos das múltiplas maneiras de se inventar hipóteses, sendo que o único invariante é o requisito da verificabilidade.

Em resumo, a arte de formular perguntas e comprovar respostas – o “método científico” – cujas regras não são simples, nem infalíveis e nem bem conhecidas – é qualquer coisa menos um conjunto de receitas.

Modelos Científicos

Para apreender a realidade o ser humano começa com idealizações e simplificações que permitem construir o que Bunge define como objeto-modelo ou modelo conceitual da coisa, fato ou fenômeno. O modelo conceitual pode nos dar uma imagem simbólica do real. Depois se atribui a ele certas propriedades, em geral não sensíveis, buscando inseri-lo em uma teoria capaz de descrevê-lo teórica e matematicamente. Esta é a etapa do modelo teórico, ou seja, a complexidade vai aumentando. Somente a prova da experiência pode dizer se o modelo é verdadeiro ou falso. Mas o próprio fracasso pode sugerir novas ideias das modificações que devem ser introduzidas para tornar o modelo mais realista.

Entende que o modelo envolvido em cada teoria, genérica ou específica, não precisa ser pictórico e não deve ser confundido com analogias ou metáforas aliás, as metáforas devem ser evitadas, pois … nem diagramas, nem análogos materiais podem representar o objeto de uma maneira tão precisa e completa como o faz um conjunto de enunciados.

Em resumo, a visão epistemológica de Bunge é profundamente racionalista. Entende ser possível axiomatizar qualquer campo do conhecimento, mas um novo tipo de axiomatização em que, particularmente na Física, toda fórmula deve ser acompanhada de uma assunção semântica capaz de esclarecer o significado físico dos conceitos fundamentais envolvidos. Todavia, considera que a característica fundamental das ciências naturais (ou fáticas) é a verificabilidade e nesse sentido assume uma postura realista. Porém, a verificabilidade das hipóteses científicas não garante que elas sejam definitivas.

Assim, Bunge assume que a modelização, um processo criativo do ser humano que encerra um aspecto idealizado de um pedaço da realidade, é uma forma eficaz de apreender a realidade. Pietrocola (1999) sugere que, para Bunge, a atividade de modelização seria o verdadeiro motor da atividade científica, por canalizar as duas instâncias do humano: a teorização generalizante dos domínios abstratos e o empírico específico e concreto da experiência sensitiva.

Com relação às implicações para o ensino de Física, e de ciências em geral, Bunge sugere que o uso cuidadoso dos modelos instrumentaliza o aluno a representar a realidade, favorece a compreensão do mundo e exercita sua capacidade criativa e reflexiva.

sumário