Capítulo 10: A biologia do Conhecer – Subsídios para epistemologia

Humberto Maturana

O objetivo principal de Humberto Maturana (1928) é explicar o fenômeno do conhecer através de uma abordagem de cunho biológico tomando o observador (o conhecedor) e a experiência do observador, sua objetividade, como ponto de partida.

O ser humano (o observador) é um ser vivo. Os seres vivos são sistemas determinados estruturalmente que interagem com o meio e entre si.

As interações com o meio caracterizam-se pela conservação de organização, isto é, não são interações destrutivas mas apenas perturbações que se processam. Nisso consiste a distinção  entre  a  vida  e  a  morte:  a  morte  é  a  ausência  de  organização  (desintegração), enquanto a vida pressupõe interações que são perturbações em correspondência com o meio, de tal forma que vai ocorrendo adaptação.  Essa é a essência da sua  teoria da autopoiese.

Nessa interação, tanto o organismo quanto o meio vão mudando juntos; vai ocorrendo uma história de mudança estrutural do organismo e uma história de mudança estrutural do meio, e são histórias congruentes, que produzem um curso onde, momento a momento, um desencadeia mudanças no outro. Ex.: quando usamos sapatos novos ocorre que o pé cria calos e o sapato se deforma com o tempo; como resultado pode-se dizer que o domínio de congruência estrutural entre o pé e o sapato se ampliou.

Esse tipo de mudança estrutural recorrente ocorre também nas interações entre organismos. O social, por exemplo, surge no âmbito do viver, surge na convivência de indivíduos (pessoas) que se realizam como tal, vivendo nele.

Mas, para que ocorra essa história de interações recorrentes é preciso que haja uma disposição, um aceite do outro na convivência, em outras palavras, está presente a emoção.

Segundo Maturana, tem sido uma história de variabilidades a história evolutiva do ser humano. Mas há algo que se conserva e que distingue esse ser dos outros animais: são as interações recorrentes, a convivência, o compartilhar. E isso não é cultural é biológico.

Nessa história onde há espaço para interações recorrentes, para o consenso, para o compartilhar, o toque sensual, a colaboração, a vida em grupos surge a linguagem. É na conversação, na linguagem que surgem os objetos porque a sua existência é trazida à mão pelo observador. Não é o externo que determina a experiência. O sistema nervoso funciona com correlações internas, ou seja, o mundo que percebemos emerge de dentro, a experiência nos acontece e em seguida procuramos explicar o que fazemos tomando por base a convivência. E a convivência tem por trás de si a emoção (o amor), que torna possível o fenômeno da interação recorrente.

O conhecimento é adquirido na convivência. É preciso através da convivência ser capaz de fazer certas coisas que os outros consideram satisfatórias e as acabam incorporando.

O conhecimento é uma apreciação de um observador sobre a conduta do outro, que pode ser ele mesmo. No momento em que se vê isto dessa forma, por um lado, descobre-se que o conhecimento é sempre adquirido na convivência. Descobre-se que se aprende a ser de uma ou outra forma na convivência com outros seres humanos. Por outro lado, descobre-se que o conhecimento tem a ver com as ações.

Maturana propõe que existem dois caminhos explicativos distintos: a objetividade sem parênteses que pressupõe que existe uma realidade independente do observador, que adota reflexões e métodos universais, válidos para todos os humanos em qualquer lugar sem levar em conta a emoção. Como essa realidade é única, vale a noção de universo e universalidade. No entanto, ele entende que não é assim que o indivíduo conhece. O outro caminho é o da objetividade entre parênteses, que leva em conta a emoção e o domínio de ação de cada pessoa, ou seja, toma a experiência do sujeito enquanto ser humano como foco a partir do qual a ciência se faz no prazer de explicar as coisas.

Esse explicar é uma reformulação da experiência com elementos da própria experiência do observador. Abre-se assim a possibilidade de entender a ciência como conectada ao cotidiano. Podemos ter tantos domínios de realidade, tantos universos, quantos domínios de coerência operacional possamos originar na nossa experiência, daí a idéia de multiverso. A epistemologia de Maturana segue por essa linha.

Domínios explicativos são domínios de realidade, por exemplo, a história da Física, o futebol, a Biologia, etc. Todos são definidos por um conjunto de coerências operacionais – cada um é um universo.

Para Maturana uma explicação somente é científica se obedece ao Critério de Validação das Explicações Científicas, satisfazendo simultaneamente:

1- o fenômeno: não é o fenômeno em si, mas é aquilo que o observador deve fazer para experienciar o que se quer explicar (expresso como uma receita: faz assim, mede dessa forma, etc.);

2- a hipótese explicativa:  a  reformulação  da  experiência  sob  a  forma  de  um mecanismo  gerativo  que quando posto a funcionar na experiência do observador gera o que se quer explicar (o fenômeno). É sempre uma proposição ad hoc que está relacionada com as descobertas prévias do observador;

3- a dedução a partir da operação de tal mecanismo gerativo e das coerências operacionais no âmbito da experiência do observador e das operações que deve realizar no seu domínio de experiências para ter as experiência;

4 – a realização da experiência (na experiência do observador) pela realização das operações deduzidas na condição anterior.

Tal critério de validação das explicações científicas não exige a suposição de uma realidade  independente  do  observador,  ou  seja,  não  precisamos  da  objetividade  sem parênteses para fazer ciência. Esse critério constitui um domínio social, na medida em que as explicações científicas são válidas enquanto for aceito o critério e dentro da comunidade científica que o aceita.

Como domínio cognitivo, a ciência é um domínio de ações, uma rede de conversações que envolve afirmações e explicações validadas numa comunidade que aceita o critério de validação das explicações científicas sob a paixão de explicar. Há sempre uma emoção por trás do domínio no qual acontece uma ação. No caso da ciência a emoção fundamental é a curiosidade sob a forma de paixão de explicar.

O que define a ciência, para Maturana, é o critério de validação que os cientistas usam e sob o qual decidem se uma explicação é válida ou não. Além disso, as explicações surgem dentro de um domínio de experiências que é expansível, isto é, sempre é possível fazer novas perguntas e gerar novas explicações de forma incessante. Portanto, o crescimento da ciência é contínuo. Como devem satisfazer a um mecanismo gerativo, as explicações científicas são mecanicistas. Porém, o critério de validação das explicações científicas é constituído em termos de coerências operacionais do cientista e não envolve suposições sobre uma realidade objetiva independente.

Como cientista, o ser humano está sob a paixão do explicar e se torna mais cuidadoso para não confundir domínios experienciais comprometendo-se a usar apenas o critério de validação das explicações científicas no seu explicar. Entende que compreender uma dada experiência é um operar ciente das circunstâncias que a geram e também que tudo o que ocorre numa explicação científica ocorre no domínio de experiência do observador. Assim as teorias científicas surgem como livres criações da sua operação enquanto cientistas.

Entende Maturana que é enganosa a crença de que a ciência deve revelar propriedades de uma realidade independente do observador e que as teorias científicas devem envolver quantificações e predições.

Ele discorda de Popper, Lakatos, Kuhn e outros, pois entende que as noções de falseabilidade, verificabilidade ou confirmação não se aplicam ao domínio da ciência já que as explicações científicas não se referem a uma realidade independente do observador, mas se referem à experiência do indivíduo enquanto ser humano. Portanto, a validade do que se faz em ciência se sustenta na consensualidade operacional na qual ela surge como coexistência humana.

Pelas mesmas razões não se sustenta a afirmação frequente de que o conhecimento científico é válido porque suas explicações e afirmações são continuamente confrontadas com a realidade objetiva independente e que é a universalidade e a objetividade que garantem aos argumentos racionais a sua força e às afirmações científicas seu caráter convincente.

A ciência não é diferente de qualquer outro domínio cognitivo, sua peculiaridade surge da  sua  forma  de  constituição  pela  aplicação  do  critério  de validação  das  explicações científicas, que descreve o que os cientistas fazem na prática da investigação científica. O cientista não pode gerar afirmações e explicações que não estejam constitutivamente nas coerências operacionais da sua práxis de viver. Nesse domínio, qualquer experiência é um objeto de reflexão.

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