Capítulo 1 – Introdução

Nota

Este texto pretende apresentar de forma sucinta e bastante introdutória as diferentes visões de alguns dos principais filósofos da ciência do século XX relativamente à produção do conhecimento científico, à visão atual de ciência e seu processo de evolução.

O século XX foi um período de intenso debate epistemológico, desencadeado inicialmente por Karl Popper, ao qual aderiram diferentes protagonistas nas décadas subsequentes sobre o caráter, a função  e a natureza da ciência.

Esse debate foi tão rico que deu origem, a partir das últimas décadas do século passado, a um novo campo de pesquisa em ensino de ciências, particularmente em ensino de Física, sobre as influências, a contribuição e o processo de transformação dessas visões no ensino e aprendizagem das ciências.

De maneira geral, a pesquisa tem mostrado que:

  • a percepção dos professores e dos estudantes sobre ciências e sobre o trabalho dos cientistas tem efeitos no ensino e na aprendizagem;
  • é importante que os professores estejam conscientes dessa influência;
  • é preciso que os professores tenham consciência que as teorias científicas não são definitivas e que existem explicações alternativas e controvérsias em torno dessas teorias;
  • uma  visão criativa e aberta da ciência pode operar positivamente na imaginação e motivação dos estudantes;
  • e mais ainda, que a despeito dos esforços desenvolvidos no sentido de introduzir visões contemporâneas, especialmente através da criação de disciplinas específicas com esse fim nas universidades, não tem sido alcançado um entendimento desejável da natureza da ciência, tanto por professores quanto por estudantes, nos diferentes níveis de ensino.

E  necessário  que  os  professores  tornem  claras  para  si  mesmos  suas  imagens  da natureza da ciência, pois eles desempenham papel importante como mediadores da cultura científica e precisam comunicar tais idéias em suas aulas.

Sob  esse  prisma  procuraremos  apresentar  as  idéias  centrais  dos  seguintes epistemólogos da ciência:

  • Karl Popper,
  • Thomas S. Kuhn,
  • Imre Lakatos,
  • Larry Laudan,
  • Gaston Bachelard,
  • Stephen Toulmin,
  • Paul Feyerabend,
  • Humberto Maturana,
  • Mario Bunge e
  • Ernst Mayr.

Antes, apresentaremos conceitos básicos do indutivismo, pois foi em oposição a ele que surgiram as chamadas epistemologias do século XX.

Nosso público alvo é o professor de ciências que deseja pesquisar nesta área, particularmente em sua própria sala de aula, sobre sua própria prática docente e sobre a aprendizagem de seus próprios alunos. Mas também de alunos da graduação que almejam a continuidade de estudos na pós.

Cabe lembrar que pesquisar é produzir conhecimentos sobre um certo fenômeno de interesse, respondendo questões-foco sobre tal fenômeno, dentro de um marco teórico, metodológico e epistemológico sólido e coerente. Para isso, se o fenômeno de interesse é o ensino e a aprendizagem de ciências, é preciso aprender sobre teorias de aprendizagem e desenvolvimento cognitivo, sobre metodologias de pesquisa em educação e sobre epistemologia da ciência. Outros textos, complementares a este, tratam de bases teóricas. Este procura fornecer apenas bases epistemológicas para o professor pesquisador em ensino de ciências.

Contudo, este texto poderá subsidiar não só a pesquisa em ensino de ciências mas também o próprio ensino, pois acreditamos que a formação de um professor pesquisador deve contemplar não só os conteúdos específicos da sua própria disciplina e as questões metodológicas do ensino da mesma, mas também aspectos epistemológicos a fim de não ensiná-la sob um enfoque dogmático, empirista-indutivista, já superado pela epistemologia contemporânea.

Esperamos, então, que este texto possa subsidiar o professor de ciências tanto na pesquisa como na prática docente.

Marco A. Moreira & Neusa T. Massoni
Professor Hemérito da UFRGS e Professora Doutrora da UFRGS

Reproduzido com a autorização dos autores 2019