Análise espacial Campus UFMG

RESUMO

  A presente pesquisa insere-se no contexto do desenvolvimento simultâneo e acelerado dos processos de urbanização e desenvolvimento tecnológico. Por um lado, os conflitos socioespaciais derivados do adensamento das cidades tem resultado na perda significativa da qualidade de vida dos cidadãos e apresentado uma necessidade cada vez maior da promoção de uma gestão eficiente dos recursos urbanos, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil; por outro, começa-se a observar a mudança de paradigma de um pensamento determinista segundo o qual a tecnologia de informação seria responsável por uma revolução na sociedade com a diminuição das distâncias físicas e crescimento de uma interatividade generalizada que culminaria na dissolução da cidade. Nos últimos anos tem-se avançado no entendimento da TI como um agente vinculado à produção dos espaços materiais num estado de influências mútuas e recursivas. Toma-se como objeto dessa investigação o Campus da Universidade Federal de Minas Gerais, situado na região da Pampulha na cidade de Belo Horizonte. Tem-se como objetivo estudar as correlações existentes entre a análise configuracional e a ocorrência de situações urbanas críticas registradas pelos próprios usuários do campus por meio de uma rede social constituída através de aplicativos para equipamentos de tecnologia móvel.
Como principais resultados e contribuições da pesquisa, prevê-se a avaliação da qualidade ambiental do espaço urbano analisado, bem como a constituição de uma possibilidade de metodologia para a gestão eficiente do espaço urbano. Visa-se compreender a temporalidade dos lugares pesquisados, ou seja, o modo como se dão suas transformações e para quê um estado inicial pode evoluir. Dessa forma, pretende-se verificar suas mudanças e as consequências delas como antecipações do futuro, verificando como, recursivamente, formas físicas e formas sociais se modificam. Acredita-se que a utilização das tecnologias de informação aplicada à gestão urbana seja capaz de refletir o dinamismo das situações urbanas mais críticas, capturando dados que alimentarão a análise da configuração espacial, possibilitando inclusive a orientação para futuras transformações urbanas a serem planejadas. Contudo, pretende-se verificar a possibilidade de uso dessas análises como um quadro teórico inovador mais do que chegar a uma conclusão sobre o estado ambiental do setor urbano estudado, tendo em vista que os fenômenos registrados são dinâmicos e devem ser compreendidos de acordo com as transformações recursivas entre espaços e atividades urbanas. Ao mesmo tempo, tais análises permitirão o encaminhamento de futuras pesquisas para o avanço da instrumentação do design e projeto urbano com a Computação Ambiental.

INTRODUÇÃO

  O uso da Tecnologia da Informação (TI) em larga escala tem modificado o modo como lidamos com o espaço da cidade. O emprego da comunicação e de suas representações tem aberto novos significados para a interação e a sociabilidade (Stefik, 1996) e as relações entre formas sociais e formas físicas da cidade mudaram dramaticamente nos últimos anos (Feenberg, 1991). Nas décadas de 1980 e 1990 imaginou-se que a Realidade Virtual (Gillespie, 1992) encurtaria distâncias reais (Virilio, 1993) retirando do mundo físico a sua utilidade (Gillespie, 1992). Nos ‘noughties‘ vimos a consolidação de mentalidades que celebravam o conceito de aldeia mundial sem divisas. Ao mesmo tempo, observávamos, aterrorizados, o aparecimento de cenários políticos fundamentalistas, surpreendendo-nos com a destruição de um dos símbolos da centralidade econômica norte-americana  em setembro de 2001. Essas perspectivas descritas revelam, segundo McCullough (2004), ‘uma crise da noção das dimensões físicas’ do espaço, do lugar, da região e da cidade. Naquele momento pensou-se que a rede negava a geometria (Mitchell, 1995). Com a difusão do uso de dispositivos móveis para comunicação dotados de capacidades computacionais em rede, mais uma vez a importância do espaço físico parece estar se modificando. Uma miríade de recursos podem ser explorados por arquitetos e desenhistas urbanos quando decidem incluir capacidades computacionais nos seus projetos, espalhando-as no meio ambiente, visando o apoio às atividades das pessoas. Estas novas possibilidades têm, com efeito, desafiado aqueles profisionais. Elas os confrontam com uma grande variedade de variáveis implicadas em situações espaciais específicas, quando se trata de projetar um lugar urbano ou um edifício. Retornados à discussão acerca da natureza dos lugares – da qual arquitetos e urbanistas nos afastamos desde a década de 1980 – encontramo-nos agora diante de uma materialidade que apresenta um grau de complexidade sem precedentes na história humana (Pawley, 1998). Uma revisão na literatura mostra que, passado o tempo das predições futuristas feitas por autores que aceitavam um determinismo tecnológico sobre a evolução social, a natureza da TI está sendo agora compreendida como entrelaçada à produção material dos espaços (Souza, 2010). Assim, temos um panorama onde se concebe uma nova ideia: a de que a materialidade construída dos espaços urbanos e as redes de TI aplicadas na cidade estabelecem um estado de recursividade, modelando-se mutuamente. Como apontou McCullough, ‘contextual computing begins from the physical geometry’(Mccullough, 2004: 98). Segundo aquele autor, precisamos estar atentos aos desafios e às oportunidades que as novas tecnologias potencializam, distinguindo-as da corrente que empregou uma terminologia espúria há 30 anos. Mas, sofremos ainda a ausência de um quadro teórico unificado entre os campos de conhecimento envolvidos numa computação que considere as relações entre o contexto urbano e as formas sociais da cidade (Greenfield, 2007: 34).  Tal é o problema que a pesquisa irá tratar de compreender.  

O CONTEXTO DA PESQUISA

  A presente pesquisa está em execução através do Núcleo de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi iniciada no último semestre de 2011, e integra um conjunto pesquisas apoiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Minas Gerais (FAPEMIG), agências governamentais nacionais e estaduais para o fomento da pesquisa brasileira. Os relatos que se seguem referem-se aos estágios iniciais, indicando o contexto teórico sobre o assunto e a caracterização sumária do campo da pesquisa.  

MODELOS CONCEITUAIS

  Os modelos conceituais do urbanismo, até 1970, estavam restritos às visões nas quais predominavam as abordagens econômicas e de engenharias urbanas. Na década seguinte, as ciências sociais também se juntaram a tais modelos, desarticulando ainda mais uma unificação conceitual sobre a dinâmica da sociedade, da cidade e da tecnologia. Preocupados com isso, Bill Hillier e Julienne Hanson escreveram “The social logic of spaceâ€? (1984), argumentando que a movimentação e os fluxos da cidade obedecem a uma lógica racional segundo a qual qualquer deslocamento é levado a cabo pelo menor percurso e assim, portanto, a configuração influirá nesses fluxos. A configuração da forma física gera, desse ponto de vista, as condições de acessibilidade, e origina a diferenciação espacial através dos conceitos de integração ou de segregação do espaço percorrível. Portanto, não haveria uma abstração programática a determinar a forma arquitetônica e urbana, como a que pode ser vista na afirmação abstrata de Corbusier, segundo a qual “a casa é a máquina de morarâ€?. Diferentemente, para Hillier, “O espaço é a máquina[1]â€? (1996), ou seja, ele ancora as possibilidades de uma forma social dinâmica. Essa abordagem ganhou força nos últimos anos, reafirmando o retorno da importância geométrica dos espaços concretos. Com uma rede de pesquisa e com seminários bienais em todo mundo, desde a década de 1980, o grupo do Space Syntax (Syntax, 2007) desenvolveu um quadro teórico e o vem implementando a partir de estudos de casos com a sua aplicação. A teoria trata da métrica das distâncias topológicas e físicas entre trechos percorríveis de um dado espaço urbano, e esse cálculo só se tornou rápido e mais eficiente devido à capacidade computacional contemporânea. Estudando-se as propriedades da configuração dos espaços urbanos, o fluxo e a acessibilidade são representados de forma a esclarecer a distância topológica dos espaços percorríveis entre si, a visibilidade dos recintos articulados nesse percurso, e o potencial trajeto das pessoas no seu interior. O valor de tais informações, para os projetos de reforma urbana, consiste em auxiliar a decisão de futuras intervenções na malha urbana sem que tais intervenções desestruturem o desenvolvimento das atividades historicamente formadas sobre o espaço. Para projetos novos, o estudo da sintaxe espacial permite antever como se dará o desenvolvimento social a partir de regiões segregadas e integradas por sua distância topológica, permitindo elaborar com mais precisão o zoneamento e a caracterização das áreas do projeto. Em outras palavras, o valor da teoria encontra-se na gestão mais eficaz do meio ambiente construído. Buscando a gestão mais eficiente de espaços educacionais e com o objetivo de investigar as relações de ancoragem da vida social sobre a configuração espacial urbana, essa pesquisa estudou um recorte com características fortemente identificáveis na cidade de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, Brasil. Utilizando o recurso de mapeamentos populares coletivos, feitos com auxílio da TI, juntamente com o uso da análise da configuração espacial nos moldes da sintaxe espacial, tentou-se verificar a correlação dos tipos de relatos georreferenciados com as métricas deduzidas no estudo da sintaxe espacial.  

O CAMPO DA PESQUISA

  O Campus da Universidade Federal de Minas Gerais, localizado na região da Pampulha na cidade de Belo Horizonte (ver Figura 1, página 5), foi o setor urbano estudado nessa pesquisa. A universidade apresenta atualmente muitos desafios, dentre os quais o planejamento físico e territorial, visando melhorar suas instalações e funcionamento em constante interação e solidariedade com a realidade urbana e social com que se relaciona e que é marcada por profundos déficits e contradições. Um histórico do processo de planejamento da UFMG pode ser entendido em cinco fases (Branco, 2012). A primeira que vai da fundação, em 1927, até 1949, quando ocorreu a federalização da UFMG, foi marcada pela ausência de um campus central e é o período das faculdades isoladas. O segundo período vai de 1949 até 1962, da federalização da UFMG até a inauguração do prédio da Reitoria no Campus Pampulha. Nesse segundo período o planejamento físico da UFMG deu-se em torno do chamado ‘Plano Pederneiras’, que previa a construção do campus da UFMG no bairro Santo Agostinho, a partir de projeto arquitetônico neoclassicizante. A terceira fase teve início em 1962, com a inauguração do prédio da Reitoria no Campus Pampulha, com projeto do arquiteto Eduardo Mendes Guimarães Júnior. Uma quarta fase, iniciada no final da década de 1990, conhecida como Campus 2000, está em vias de se completar, com a transferência das últimas unidades acadêmicas para o Campus Pampulha. Abre-se, então, a atual fase do planejamento físico e territorial da UFMG, que tem duas grandes vertentes. A primeira diz respeito à ampliação do âmbito de abrangência do planejamento, pela inclusão de todas as unidades territoriais da UFMG. A segunda vertente diz respeito à requalificação do Campus Pampulha pela realização de quatro intervenções estruturantes:
  1. Um novo plano de mobilidade (circulação, trânsito, transporte, estacionamento);
  2. Uma nova estrutura de serviços e amenidades urbanas; 0
  • Um novo plano de obras;
  1. Um novo plano de interação do Campus Pampulha com o seu entorno urbano (Branco, 2012, p. 18-19).
O modelo de localização do Campus Pampulha é o da descentralização urbana, semelhante ao da organização territorial anglo-saxônica, na qual a ideia de campus tem origem (Branco, 2012). A concepção pedagógica subjacente à ideia de campus baseia-se no princípio da autossuficiência e do isolamento em relação à cidade. Coerente com esse princípio, o campus contém não só a estrutura para o ensino e a pesquisa, mas ainda as instalações para as atividades culturais e esportivas complementares, instalações administrativas e ainda os estabelecimentos comerciais necessários para assegurar a subsistência da comunidade universitária. A ideia básica é uma estrutura segregativa, estritamente instrumental e compartimentada. O problema da flexibilidade e da capacidade de crescimento se resolve através de uma proliferação caótica de edifícios que exclui a possibilidade e qualquer reordenação orgânica e sistemática (Branco, 2012, p. 62-64). O pensamento que originou o planejamento desse espaço é, atualmente, relativizado, uma vez que a sociedade demanda maior tolerância ideológica e a integração mais eficiente com a academia, como expressa o surgimento de termos como universidade aberta, ciência sem fronteiras, dentre outros. Além disso, muitas universidades têm mudado o seu interesse, da pesquisa fundamental para a tecnologia e a pesquisa aplicada. O campus isolado, com edifícios isolados, jardins ornamentais, gerando pessoas e ideias isoladas, em nada se identifica com a Universidade hoje. Percebe-se a necessidade de conferir ao território universitário uma qualidade de vida urbana, em que as interações, as associações e as pessoas fazem o cotidiano rico em crítica e criatividade. Assim, considerando-se que o espaço urbano encontra-se em constante transformação, sujeitas às demandas da sociedade, entendeu-se que as atuais transformações físicas territoriais do Campus UFMG Pampulha trariam grande subsídio à análise proposta nesta pesquisa, por meio do registro de incidentes ambientais críticos por parte dos próprios usuários.  

METODOLOGIA

  A presente pesquisa tem natureza exploratória, e busca reunir o máximo de evidências acerca do problema tratado, qual seja, observar o grau de congruência das formas sociais com a configuração territorial através da análise espacial. Não tem o objetivo de testar uma hipótese, mas de procurar indicações para pesquisas futuras. Nos moldes de um estudo de caso (Yin, 2003), buscou compreender fenômenos que se consideram indivorciáveis da situação em que são observados através das seguintes etapas:
  • Elaboração de um quadro teórico para a avaliação da qualidade ambiental de espaços urbanos por meio da revisão de literatura e tendo como fio condutor o quadro teórico desenvolvido por Malard (1992) e Souza (2010), no qual as qualidades do espaço urbano podem ser classificadas como territorialidade, privacidade, identidade e ambiência;
  • Elaboração de um repertório de condições ambientais críticas que possam potencialmente ocorrer no Campus UFMG Pampulha. Baseado no quadro teórico foi elaborado uma lista de conflitos interferentes nas qualidades do lugar, os quais constituem um menu prévio, disponível ao usuário no aplicativo a ser desenvolvido, visando o registro de situações ambientais críticas, e permitindo a especificação de outros detalhes e inclusão de fotos pelo usuário;
  • Realização da análise configuracional do campus, implementado a partir dos conceitos de Isovista de Turner (2001), estudando a representação dos ângulos visuais a partir de determinados pontos no espaço. Para tanto serão utilizados aplicativos de GIS e modeladores globais;
  • Coleta de dados dos registros pelos usuários durante um período de tempo proporcional ao prazo do projeto. Esta etapa visa informar os principais estados críticos ambientais e classificar seus registradores para posterior análise.
  • Compilação e registro georreferenciado dos dados fornecidos pelos usuários;
A análise final compreende a tentativa de correlacionar a análise configuracional e os registros produzidos através de web-aplicativo.  

ANÃ?LISES

  A seguir são descritos os procedimentos analíticos utilizando-se os dados acumulados pela pesquisa até o primeiro bimestre de 2014. Por encontrar-se em curso, esse estudo deverá ainda analisar mais sistematicamente os elementos apontados a seguir, buscando consolidar seus resultados e extrair encaminhamentos para futuras pesquisas. A seguir se apresenta o resultado do processamento de dados elaborados pelos aplicativos Depthmap 1.0 (Turner, 2013), Ajax 1.0.2 (Batty, 2013), GoogleEarth (Google, 2014), ArcGis 10 (Esri 2012) e MapInfo 8.0 (MapInfo Corporation) para os três tipos básicos de análise configuracional do espaço urbano.  

MAPA DE AXIALIDADE

  A finalidade da elaboração do mapa axial de um setor urbano é representar a distância topológica de cada segmento percorrível do espaço público relativamente a todo o setor. Tais segmentos são obtidos através de uma abstração que representa planimetricamente os recintos urbanos como uma sequência de polígonos convexos, ou seja, cujas secantes não interceptam mais do que dois pontos do polígono. Uma vez interpretadas as ilhas espaciais do vazio urbano percorrível, cada polígono será representado pelo eixo secante de maior distância traçado no seu interior. Uma vez traçado o mapa axial, procede-se à contagem de mudanças de passos topológicos de um segmento ao outro. Na figura 3, por exemplo, o segmento 2, que representa a principal alameda de acesso ao campus, dista um passo do segmento 4; dois passos do segmento 3 e quatro passos do segmento 1, que são respectivamente o número de mudanças de direção contadas a partir do segmento 1 para acessar os outros mencionados. O processo de subdivisão dos espaços em polígonos convexos permite correlacionar cada extensão planar com as demais, numa relação planar das distâncias. Já a confecção do mapa de axialidades permite estudar a propriedade da linearidade, ou seja, extensão unidimensional (o passo topológico). Esses dois modos de estudo permitem analisar dois tipos de comportamento configuracional: a desagregação linear (unidimensional), no caso dos eixos, e a convexa (bidimensional), no caso dos polígonos formados por tais eixos. [1] “Space is the machineâ€?, do original (Hillier, 1996). Considerando as peculiaridades do traçado urbano do campus, alguns ajustes foram feitos no sentido de facilitar a visualização mais precisa das duas análises descritas acima. As figuras anteriores mostram o loteamento do território universitário, e no estudo de axialidade foram considerados os limites viários que limitam esse território. O campus possui 5 portarias e acessos externos específicos, como o do Hospital Veterinário. Assim, o território pôde ser estudado considerando-o como uma totalidade fechada pelos seus limites. Não se considerou, contudo, alguns outros aspectos da métrica configuracional urbana, tal como, por exemplo, a medida da relativa assimetria, que investiga a relação do grafo real a projeção topologicamente regular dos mesmos nós e vértices. A fórmula da relativa assimetria (RA) é descrita pela equação (1). RA = 2(médiaâ€?1) / kâ€?2                                                                                                         (1) Onde: média: profundidade média de todos os nós do grafo (distâncias topológicas divididas pelo número de conexões menos 1, ou seja excluindo-se o segmento que se analisa do número total de segmentos) k: número total de vértices do grafo (pontos ao final das conexões) Pretende-se, futuramente, avançar sobre esse cálculo, interpretando seu significado para a área em estudo. As análises da axialidade mostraram uma deformação relativamente ao segmento A (figura 3). Ele, na verdade, não recebe as conexões dos segmentos abaixo, o que deveria diminuir consideravelmente o peso de sua conectividade. Essa deformação foi causada pela base de dados utilizada, devendo ser corrigida futuramente. Os segmentos marcados B, C e D (figura 3) correspondem aos maiores adensamentos de edificações, e a uma ampla variedade de atividades correlatas localizadas ali. Rente ao segmento C, temos a Reitoria, e em D, encontramos a praça central de serviços. A representação, conseguida com essa análise, é bastante significativa. Os dois segmentos abaixo do ponto marcado D correspondem a recintos urbanos cujo fluxo de pessoas é muito alto, na entrada do Instituto de Ciências Exatas (ICEx) e da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE). A região compreendida de B até D historicamente foi projetada como um boulevard de acesso hierarquicamente concebido como uma entrada principal. Entretanto a análise de axilidades aponta para a existência de uma fraca integração de todo a via, fraqueza que é reforçada pela pouca visibilidade ocasionada por conjuntos de volumes arbóreos que  obstruem a visibilidade dos acessos. Ao mesmo tempo, parece provável a intenção de se ter constituído ao redor do ponto D a área mais integrada de todo território universitário, uma vez que esse ponto se destina a abrigar uma área de integração social, com multiplicidade de atividades e serviços. A análise revela, entretanto, que essa intenção pode não ter sido obtida, pois a configuração que o traçado urbano potencializa não integra a referida hierarquia topológica, existindo apenas como uma formalidade projetada para se tornar um acesso monumental e simétrico. Em outras palavras, seria importante conectar esse segmento a outras funções, e tal é o que está sendo feito atualmente, com o projeto uma da Faculdade de Direito que será implantado às margens dessa via.

ANÃ?LISE DE ISOVISTAS

  A isovista é um dos conceitos consagrados da análise configuracional dos espaços e pode ser entendida como um mapeamento do potencial de visibilidade de cada ponto do espaço. Para esse cálculo, a sequência de recintos urbanos deve ser analisada através de uma malha que especificará a posição de cada ponto sobre o espaço público e para cada ponto será somado o número de pontos a que estiver cada um estiver linearmente conectado no espaço urbano. A maior dificuldade dessa análise, utilizando o instrumento Depthmap referido anteriormente, se deveu a que a densidade de construções no campus é baixa e a presença de conjuntos arbóreos é fortemente interferente sobre a visibilidade dos espaços públicos, ainda que só considerados no limite das marcações dos terrenos. Assim, o resultado parece irrelevante, como mostrado na Figura 4.                         Atualmente, a capacidade computacional disponível permite o cálculo da isovista considerando a tridimensionalidade dos espaços. Tal é o caso de alguns aplicativos, como o ‘Rhinoceros’ (Robert McNeel & Associates). Nessa pesquisa, a opção foi a de utilizar o novo recurso oferecido pela empresa Google (GoogleEarth) que, utilizando a tecnologia LiDAR, possibilitou a modelagem tridimensioinal da área estudada e o cálculo dos enquadramentos visuais, nos moldes das técnicas de cálculo de ‘viewshed’ e ‘skyline’ na Geografia.

ANÃ?LISE DOS AGENTES

  A análise dos agentes significa a análise dos movimentos potenciais do público nas áreas delimitadas. Mais uma vez, a teoria terá de ser interpretada para as condições analisadas: os espaços para a deambulação pública, no caso dessa pesquisa, devem ser delimitados considerando aqueles espaços que realmente são percorríveis. Utilizando as delimitações das vias, o resultado da análise pareceu inconcluso, tal como a isovista bidimensional mostrada na figura 5.  

CONCLUSÃO

  Quanto à análise dos registros via web, a coleta de dados através do registro de relatos feitos pela população que utiliza o espaço urbano ainda está sendo feita através da plataforma USHAHIDE / Crowdmap. As observações no local foram o referencial para se conduzir o estudo da correlação entre a análise configuracional e a manifestação da vida social.

Referências

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